quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Ser "Faixa Preta"! (Texto resumido)

Por reverendo Kensho Furuya - Aikikai (In Memorian):

...., acho que os falsos conceitos em geral sobre “o que é uma faixa preta” devem ser esclarecidos tanto quanto possível. Este não é um assunto muito popular para ser discutido da forma como o farei. Sem dúvida, advirto meus alunos a não fazer essa pergunta em primeiro lugar. A resposta não é aquela que eles querem ouvir.

...Quando você compreende que a faixa preta não é tão importante quanto à prática em si, provavelmente está se aproximando do nível de faixa preta. Quando você compreende que não importa quanto tempo ou quão duro você treine, há uma vida inteira de estudo e prática à sua frente até a morte, você provavelmente está chegando perto da faixa preta.

Seja qual for o nível que você obtenha, se você achar que “merece” uma faixa preta ou se achar que você agora “é bom o bastante” para ser um faixa preta, você está fora do caminho e, sem dúvida, muito distante para alcançá-la. Treine duro, seja humilde, não se exiba diante do seu mestre ou de outros alunos, não reclame de nenhum encargo e dê o seu melhor em tudo. Este é o significado de ser um faixa preta.

...Aquilo que vestem ao redor da cintura não passa de uma peça de comércio comprada por uns poucos dólares em alguma loja de artigos para artes marciais.

A verdadeira faixa preta, usada por um verdadeiro possuidor de uma faixa preta, é a faixa branca do principiante, tingida de preto pela cor do seu sangue e do seu suor.

O primeiro nível de faixa preta é chamado em japonês de shodan, palavra que significa literalmente “primeiro nível”. O ideógrafo para Sho (primeiro) é muito interessante. Ele é formado de dois radicais que significam “roupa” e “faca”. Para fazer uma peça de vestuário é preciso primeiro cortar o molde no tecido. O padrão determina o estilo e aparência do produto final. Se o padrão está fora de proporções ou contém erros, as roupas terão má aparência e não vestirão bem. Do mesmo modo, seu treinamento inicial para atingir a faixa preta é muito importante; ele determina como você se desenvolverá como faixa preta.

...Existe uma famosa estória sobre Yagyu Matajuro, que foi um filho da famosa família Yagyu de espadachins do Japão feudal, no século XVII. Ele foi expulso de casa por sua falta de talento e potencial, e tornou-se discípulo do mestre espadachim Tsukahara Bokuden, com a esperança de atingir a maestria na espada e reaver sua posição no clã Yagyu. Em sua entrevista inicial, Matajuro perguntou a Bokuden, “Quanto tempo levará para que eu me torne um mestre na espada?” Bokuden respondeu, “Oh, cerca de cinco anos se você treinar com afinco.” “Se eu treinar duas vezes mais duro, quanto tempo levará?” tornou Matajuro. “Nesse caso, dez anos”, respondeu Bokuden.

O que você deve focar, se você não está concentrado em obter sua faixa preta? É mais fácil dizer do que fazer, mas você deve focar sua energia na prática. Porém, pensar, “Eu vou me concentrar em meu treinamento para obter uma faixa preta”, é simplesmente brincar com jogos mentais que ao final conduzirão você ao desapontamento.

...Você deve perceber também que embora você domine todos os pré-requisitos, o número correto de técnicas, todas as formas requeridas, e tenha o número apropriado de horas de treinamento, você pode não se qualificar para a faixa preta.

Alcançar faixa preta não é uma questão quantitativa que pode ser medida ou pesada. Sua faixa preta tem a ver com você como pessoa. Como você se conduz dentro e fora do Dōjo, sua atitude com seu professor e seus colegas estudantes, seus objetivos na vida, como você enfrenta os obstáculos que lhe aparecem, e como você persevera em seu treinamento, são todas importantes condições para a faixa preta. Ao mesmo tempo, você se torna um modelo para outros estudantes e eventualmente atinge o status de professor ou instrutor assistente.

...Pense sobre perder a faixa preta, e não em ganhá-la. Sawaki Kodo , um mestre Zen, freqüentemente dizia: “Ganhar é sofrimento; perder é iluminação.” Se alguém perguntar a diferença entre praticantes de hoje e do passado, eu responderia que os praticantes do passado viam o treinamento como “perda”. Eles abandonavam tudo por sua arte e sua prática. Famílias, trabalho, segurança, fama, dinheiro, para desenvolverem-se a si próprios. Hoje, eles apenas pensam em ganhar. “Eu quero isto, eu quero aquilo.” Nós queremos praticar artes marciais, mas também queremos dinheiro, fama, telefones celulares e tudo que qualquer um possa ter.

Quando o estudante olha seu treinamento do ponto de vista da perda em vez do ganho, ele se aproxima do espírito da maestria, e verdadeiramente torna-se valoroso como faixa preta. Só quando você finalmente desiste de seus pensamentos sobre exames e faixas, fama, dinheiro e a própria maestria na arte, você alcança que o mais importante é sua prática.

...Estudar arte marcial é estudar você mesmo - seu verdadeiro “Eu”. Isto nada tem a ver com graduações. Um grande mestre Zen disse uma vez: “Estudar o Eu é esquecer o Eu. Esquecer o Eu é compreender todas as coisas”.

O texto completo se encontra em nosso blog:

https://yudansha-kai.blogspot.com/

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Siga sempre em frente!

Todo ano nessa época são ouvidas palavras parecidas com as de anos atrás.

E é normal que se diga o que se sente, pois isso mostra que existe uma “intenção”...

Mas, o problema é quando as palavras são ditas pela boca e não pelo “coração”!

Pois intenção sem ação não tem valor, nada muda, nada transforma, nada causa além de uma duvidosa impressão!

Se um dia você se envolver em um conflito em vias de fato e precisar usar das habilidades  trabalhadas nas longas horas, dias, semanas, meses, anos a fio com muito sacrifício e dedicação na construção da tua própria formação, “CUIDADO”, mas, aja com determinação, convicção, certeza absoluta da situação e da tua condição, e se a dúvida do acaso aparecer, lembre-se, o Karatê-Dō é antes de tudo uma “atitude”, um modo de vida, um jeito de “ser”, um “caminho” sincero para vivenciar diariamente!

É a fidelidade para com o verdadeiro “caminho" da razão!

Feliz Ano Novo, Saúde, Sabedoria e Paz!

Prof.Sylvio Rechenberg

sábado, 28 de dezembro de 2024

“Foco” ou “miragem”!

Quando o sino toca no Dōjo o foco se concentra no som que ele produz e que ao focarmos nessa vibração, faz com que nossos pensamentos abandonem as distrações contrárias ao que buscamos aprender ali.

Não importa a condição do tempo, nem a disposição em praticar, o “sino” sempre toca no Dōjo!

Todos precisamos de um “sino”!

O sino é um símbolo de reflexão, porque a sua vibração tende a permanecer audível durante um breve momento em nossas mentes, chamando a nossa atenção para o que está por vir e do como devo agir, mas que cada um, conforme a sua capacidade de “ouvir” com o coração, vai deixando esvair até desaparecer por completo.

É assim com a prática diária do Karatê-Dō!   

Na lição de casa, que leva apenas 1 minuto, mas que poucos consideram sua rotina diária e muito menos uma prioridade em sua vida; e mesmo durante a prática no Dōjo, onde a disciplina é cobrada, mesmo assim, o "foco" se mantêm presente conforme a importância, o interesse e o valor que cada um dá para aquilo que aprende ou "pensa" em aprender.

Então nesse final de ano pergunte a si mesmo com toda sinceridade e sem desculpas:

- Tenho feito o meu melhor dentro e fora do Dōjo?

- Me comprometi de verdade?

- Fiz bem a minha parte no aprender e cultivar?

- Onde quero chegar agindo da maneira como estou agindo?

- Então, eu sou digno da minha “faixa”?

Só o querer nunca dá nenhum poder!

Prof.Sylvio Rechenberg         

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Deixe a “Arte” trabalhar!

O primeiro exercício que se aprende no Karatê-Dō é a “reverencia”, a saudação em consideração e gratidão pela Arte, pelo fundador e pelo local escolhido para nele praticar antes de adentrar na área principal de estudo e treinamento da Honorável Arte de O-Sensei’Funakoshi.

Mas, esta atitude, também tem a finalidade de atentar em esvaziar a nossa mente de qualquer outro propósito, senão o de auto aperfeiçoar a nossa condição para nos tornarmos melhores para nossa própria existência e convivência com o nosso dia a dia da vida real!

A primeira técnica que se aprende no Karatê-Dō é o “Shoku-Tsuki”, executado com as pernas lado a lado, lançando um punho para frente, enquanto o outro é puxado para trás em um único movimento de igual intensidade, mas com força na “intenção”.

O que nos passa a informação de que ao mesmo tempo que um punho é lançado adiante o outro já se prepara para uma mesma ação. Mas também significa agarrar, torcer e puxar o braço de um adversário, desestabilizando-o enquanto é atingido pelo braço oposto.  

No entanto, o sentido é bem mais profundo do que parece, e requer maturidade, paciência e persistência para a correta compreensão e a devida absorção na prática diária.       

E assim reconhecer que existe uma conexão entre a “intenção” em atacar e a capacidade de controlar esta ação e, portanto, conter o conflito!

Da mesma maneira que se trabalha o “desembainhar de uma espada”, em contrapartida se “trabalha” em mantê-la embainhada que é a parte mais difícil desde o início do “caminho”.

E que leva muito tempo, talvez uma vida, até que a “Arte” nos trabalhe por inteiro. E que com muito esforço, dedicação e um amor sincero, incondicional, podemos disciplinar todas as ações, priorizando antes de tudo o respeito, a dignidade, o valor pela vida e a vida pelo valor de sermos o que construímos “Ser”, para então “fazer acontecer” com as nossas atitudes dentro e fora do Dōjo!

Pratique Kata!

Prof.Sylvio Rechenberg 

domingo, 8 de dezembro de 2024

As "armas" do corpo!

A necessidade de se defenderem das frequentes situações de conflitos, num território hostil, obrigou aquele povo, da conhecida ilha de Okinawa a desenvolverem uma alternativa que possibilitasse a necessária sobrevivência, dando origem ao “Tê”, “Okinawa-Tê”.

A palavra, “mão” que em japonês é “Tê” foi o primeiro nome que recebeu ao que hoje chamamos de “Karatê-Dō”!

Karatê-Dō, “caminho da mão vazia”, o nome se reporta ao aspecto “mão” que por sua vez está relacionado com a maneira de “agir”, pois tudo tende a acontecer quando o “fazer” entra em ação. E é só com o “fazer acontecer” que alguma coisa pode mudar, tanto para o bem quanto para o mau! E a “mão” é a representação de um “agir” na vida de cada um de nós!

As palavras, “mão vazia” podem ser compreendidas como sendo uma forma de dizer que não envolve o uso de armas, mas, se considerarmos a palavra que se antepõem a essas duas, que é o “caminho”, logo determinamos um “modo de vida”, um jeito de “ser” uma forma de “agir” e de se comportar com a prática da Honorável Arte, o Karatê-Dō!

Nome oficialmente estabelecido em 1935 pelo próprio fundador O-Sensei’Gichin Funakshi!

Já o uso das pernas, era na época, bem menos empregado, uma vez que na defesa-pessoal em vias de fato, um chute dado de forma errada, desiquilibrada, desajeitada, sem a velocidade adequada, ineficaz, pode gerar um descuido irreparável, pondo em risco a própria vida, certamente pelas limitações das pernas em comparação aos braços e mãos numa luta real.

O Mae-Geri, (chute frontal), com as suas devidas variações, por ser mais natural e de menor gasto de energia na sua execução, foi o mais praticado naquele tempo.

Foi o filho de O-Sensei’Funakoshi, Yoshitaka Funakoshi, também conhecido como Gigo’Funakoshi ou Waka’Sensei, que entre outros atributos, foi o responsável pelo desenvolvimento e a criação do Mawashi-Geri, Yoko-Geri e Ushiro-Geri.

No vídeo podemos ver Masaaki Ueki’Sensei demonstrando a maneira correta de executar cada um desse chutes e variações:   

Prof.Sylvio Rechenberg                               

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Quando “lutar” vale a pena!

Karatê-Dō NÃO se aprende sem se chamuscar, muito pelo contrário, só se aprende de verdade quando “queima”, agindo por fora e principalmente por dentro, é quando o corpo, a mente e o espírito se envolvem em conjunto com o processo de uma transformação!

O aço só é possível forjar depois de muito martelar, mas para isso é preciso esquentá-lo até derreter, dissolver, mudar o jeito de ser, para então acontecer uma mudança real!

Por isso, uma faixa não faz um karateka, mas é o karateka que faz a “sua faixa”!

Então nunca se esqueça disso: enquanto você não mudar os teus hábitos, dentro e fora do Dōjo,  todo o teu esforço foi e será inútil; e você com uma “faixa” na cintura nada mais é do que aquilo que sempre foi e sempre continuará sendo!

Prof.Sylvio Rechenberg 

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

A vida é como um Tsuki!

Quando estamos próximo ao núcleo, (família, amigos), estamos em território conhecido, nos sentimos confortáveis e seguros, somos nós mesmos na essência!

Ao nos afastarmos desse núcleo, (família, amigos), continuamos conectados a ele, e aplicamos o que aprendemos a partir desse núcleo, onde nos foi ensinado para agirmos de forma correta, digna e justa, em harmonia com o mundo que nos cerca, continuando a sermos nós mesmos em essência!

Na expectativa de uma ação, o punho em questão, firmemente em conexão com o nosso núcleo (Hara), é mantido consciente da sua condição e, portanto, exercendo confiança, ponderação e contenção, gerando uma agradável sensação de segurança, equilíbrio e outocontrole.  

Mas, ao perder essa condição corretamente trabalhada, devidamente observada e consciente da sua função e poder, ao se afastar do seu núcleo (Hara), de forma indevida, equivocada e conforme o ego, tudo pode se transformar num pesadelo sem fim, gerando dor, sofrimento, angustia e de irremediáveis consequências!

A vida é como um Tsuki! 

Prof.Sylvio Rechenberg