quarta-feira, 28 de outubro de 2026

É preciso agir!

Autor: Otávio Luciano

Nos dias de hoje, buscamos somente aquilo que nos agrada, aquilo confortável para nós. Não queremos nada que seja difícil, nada que exija muito esforço ou que nos tire da nossa rotina confortável.

Mas será que isso é algo bom para nós? Não estamos nos tornando fracos física, mental e espiritualmente?

Com a evolução tecnológica, muita coisa ficou fácil. Hoje, temos tudo ao alcance de um clique ou de uma ligação. Não que isso seja ruim, mas quero expressar um pensamento que, para mim, é lógico.

Olhando ao nosso redor, podemos perceber que o mundo está polarizado e que estamos cada vez mais impacientes, tanto com o próximo quanto com as opiniões alheias.

Uma simples garoa, para muitos, já é uma tempestade. Essa situação é muito deprimente. Parece que estamos perdendo a força de vontade e a capacidade de enfrentar as dificuldades que nossos ancestrais tinham.

Estamos sobrevivendo, e não vivendo. Mas é claro que isso não acontece simplesmente por acaso. Tudo foi manipulado pelo sistema. O mesmo sistema que nos proporciona facilidades vende a ideia do conforto e da praticidade e nos faz acreditar que merecemos tudo isso.

Porém, estamos adoecendo. Estamos fracos, estamos desordenados e nosso espírito está abalado.

Sou novo no caminho do Karatê-Dō e ainda tenho muito a aprender, mas já consigo enxergar os frutos de trilhar esse "caminho".

Estou sempre buscando me aperfeiçoar, mas, volta e meia, acabo cedendo à praticidade e ao conforto. Hoje, porém, tenho consciência de que isso não me faz bem. Sei que precisamos fortalecer e cultivar nosso corpo, nossa mente e nosso espírito.

Esses são os três pilares do ser humano, e um não funciona sem o outro.

Para cultivar e fortalecer esses pilares, precisamos nos dedicar de maneira fiel, convicta e determinada, tendo clareza sobre aquilo que queremos construir para o nosso futuro.
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E assim também é na vida. As coisas fáceis e cômodas acabam se tornando supérfluas, pois nem sempre damos a elas o devido valor. Mas, quando precisamos correr atrás, nos esforçar, nos dedicar e manter o foco para alcançar um objetivo, a conquista ganha outro significado. Quando finalmente conseguimos, damos muito mais valor àquilo que conquistamos.

Essa é uma das coisas que mais me prendem nesse "caminho": a possibilidade de me esforçar, lutar e correr atrás de um objetivo.

O Karatê-Dō me mostrou que as coisas não são fáceis. É preciso correr atrás, se dedicar e perseverar. Não podemos simplesmente esperar que as coisas aconteçam por acaso. Precisamos correr atrás dos nossos sonhos e objetivos, nos esforçar, ralar e treinar muito — muito mesmo.

E tudo isso deve estar sempre fundamentado nos três pilares: corpo, mente e espírito.

Se temos um corpo saudável, temos força para continuar. Se nossa mente está focada em um objetivo correto, justo e em harmonia com o divino conseguimos fortalecer nosso espírito.

E o espírito, para mim, é um ponto que merece atenção especial.

Penso naquele momento em que estamos no meio do treinamento, durante o kihon, e sentimos que já não temos mais forças para continuar. O corpo está cansado, os movimentos começam a pesar e a vontade de parar aparece. Mesmo assim, encontramos dentro de nós a determinação para seguir em frente.

Para mim, isso também é fortalecer o espírito: continuar nos dedicando mesmo quando sentimos que não temos mais forças. É aprender a superar nossos limites, respeitando nosso corpo, mas sem permitir que o primeiro sinal de desconforto determine até onde somos capazes de chegar.

A repetição é o segredo. Se queremos melhorar em alguma coisa, precisamos praticá-la repetidamente. É o que fazemos nos treinamentos, com as técnicas do Karatê-Dō: repetimos os movimentos com dedicação, buscando aprimorar cada detalhe e evoluir cada vez mais.

E esse princípio também se aplica ao nosso dia a dia.

Se você quer ganhar resistência, precisa treinar com intensidade e constância. Mas não apenas dentro do Dojo. Saia para caminhar, saia para correr, faça algo por você. Não espere que a mudança aconteça sozinha. É preciso agir.

Se você quer treinar sua paciência, conviva com outras pessoas e aprenda a ouvir suas ideias sem responder imediatamente, sem discordar por impulso ou transformar toda conversa em uma discussão. Ouça, reflita e procure compreender.

Como escrevi anteriormente, vivemos em um mundo muito polarizado. Nem sempre apenas as nossas ideias estão certas. Precisamos ouvir as outras pessoas, inclusive para que, quem sabe, um dia elas também estejam dispostas a nos ouvir.

Essa é uma maneira diferente de enxergar o mundo. Ouvir alguém não significa concordar com essa pessoa. Significa estar disposto a compreender seu ponto de vista, mesmo quando ele é diferente do nosso.

Essa prática nos torna mais capazes de compreender o próximo, de olhar para além de nós mesmos e de reconhecer que não somos os únicos a ter experiências, conhecimentos e perspectivas que merecem ser considerados.

E, quando deixamos de olhar apenas para nós mesmos, abrimos espaço para aprender algo novo.

Considerações finais

Quando você perceber que sua vida está cômoda demais, que está estagnado e que precisa melhorar em algum aspecto, talvez a melhor escolha seja sair da zona de conforto e treinar. Treinar de verdade, com dedicação, disciplina e propósito.

Isso também é Karatê-Dō.

O Karatê-Dō não está limitado às técnicas da arte marcial. Ele vai muito além do Dojo. Está na maneira como pensamos, como enxergamos o mundo, a vida e o próximo. Está na forma como compreendemos a nós mesmos como seres humanos, como entendemos a sociedade em que vivemos e como desejamos contribuir para que ela se torne melhor.

O Karatê-Dō também serve para isso.

Não podemos mudar as outras pessoas à nossa vontade. Cada pessoa é um universo particular, com suas próprias experiências, pensamentos e convicções. Mas podemos mudar a nós mesmos.

E quem sabe, um dia, por meio do nosso exemplo, consigamos contribuir para melhorar o mundo em que vivemos.

Antes de tudo, porém, precisamos começar por nós mesmos, buscando sempre cultivar e fortalecer nosso corpo, nossa mente e nosso espírito.

OSS!!!

domingo, 18 de outubro de 2026

O "caminho" a partir das técnicas.

(parte do texto na introdução do livro, Karatê-Dō Kyohan) - de O-Sensei'Gichin Funakoshi.


.....Se sua aplicação tiver uma finalidade nobre, então essa arte será de grande valor; mas, se for mal utilizada, não haverá arte mais perversa ou prejudicial do que o karatê.

Certa vez, o departamento de polícia de Okinawa tentou introduzir a arte do karatê entre seus integrantes, mas a profunda preocupação com os perigos dessa arte fez com que o plano fosse abandonado. Em outra ocasião, os falecidos almirantes Rokurō Yashiro e Norikazu Kanna propuseram que o pessoal da Marinha aprendesse karatê, mas, novamente, o receio de que a arte fosse utilizada em brigas entre marinheiros levou à rejeição da proposta.

O uso indiscriminado da arte do karatê causaria grande preocupação pública, e não se pode negar seus perigos potenciais. No entanto, seria lamentável que a busca por essa arte misteriosa, da qual se pode legitimamente ter tanto orgulho, fosse evitada simplesmente por ser perigosa demais.

A origem dessa preocupação está, em grande parte, no equívoco provocado por instrutores de caráter duvidoso, que, de maneira irrefletida, dão mais ênfase às técnicas do que aos aspectos espirituais do (Dō), bem como no mau comportamento e nas atitudes inadequadas dos praticantes de karatê que aprendem essa arte exclusivamente como uma técnica de combate.

Há até casos extremos em que os alunos são efetivamente incentivados a empregar o karatê em brigas. Advertências como “Você nunca poderá aprimorar ou aperfeiçoar suas técnicas sem alguma aplicação prática em lutas” ou “Se você não consegue derrotar fulano, então talvez seja melhor abandonar completamente o treinamento de karatê” são verdadeiramente prejudiciais à reputação do Karatê-Dō.

Entretanto, esse tipo de discurso apenas demonstra a falta de bom senso daqueles que nada sabem sobre o Karate-Dō.

Quando devidamente compreendida, ensinada e praticada no verdadeiro espírito do Karatê-Dō, essa arte não é apenas a antítese de um perigo atual, mas, na verdade, encontra poucos equivalentes como arte marcial (Budō) verdadeiramente nobre.

Drogas poderosas são perigosas. O veneno é assustador. No entanto, hoje não há ninguém no meio médico que defenda que se evitem os medicamentos.

O perigo dos medicamentos potentes e dos venenos depende de como são utilizados e, quando aplicados corretamente, podem trazer grandes benefícios.

O Karatê-Dō, quando praticado de maneira inadequada, é certamente perigoso e perverso. Mas, pela mesma razão que é perigoso, o karatê também pode, quando corretamente aplicado, produzir resultados de grande valor.

Quando um paciente recebe uma receita de um medicamento potente, ele é informado sobre sua natureza e instruído a respeito de seu uso adequado. Da mesma maneira, aqueles que desejam aprender Karatê-Dō devem compreendê-lo desde o início e receber instruções sobre sua utilização correta.

A compreensão correta do karatê e seu uso adequado constituem o Karatê-Dō.

Aquele que realmente treina nesse (Dō) e compreende de fato o Karatê-Dō nunca é facilmente levado a uma luta.

Um único ataque ou um único chute determina a vida ou a morte. O karatê só deve ser aplicado adequadamente nas raras situações em que alguém realmente precisa derrubar outra pessoa ou ser derrubado por ela.

Uma pessoa comum talvez vivencie uma situação dessas apenas uma vez na vida. Portanto, pode ser que surja uma ocasião para utilizar as técnicas do karatê apenas uma vez — ou talvez nenhuma.

O autor sempre disse a seus alunos: “A arte não faz o homem; o homem faz a arte”.

Os praticantes de qualquer arte, incluindo claramente o Karatê-Dō, jamais devem se esquecer do cultivo da mente e do corpo.

No Karatê-Dō, o objetivo individual de alguém pode ser melhorar a própria saúde ou treinar o corpo para funcionar de maneira eficiente. A pessoa pode desejar desenvolver a força dos braços, das pernas ou do corpo, ou alcançar a sabedoria e a fortaleza espiritual. É evidente que alguém também pode desejar aprender Karatê-Dō para se tornar humilde.

Todos esses objetivos estão relacionados ao desenvolvimento pessoal.

Em contrapartida, no momento em que alguém faz uso indevido das técnicas — por exemplo, lutando de maneira a ferir outra pessoa ou a si próprio, ou trazendo desonra para si —, anula todos esses benefícios e méritos do Karatê-Dō.

Esse uso indevido, decorrente de uma compreensão superficial, é, na verdade, uma atitude que acaba prejudicando o próprio praticante.

É por meio do homem que as técnicas se transformam em arte. Devo insistir sinceramente: não façam uso indevido das técnicas do karatê.

O verdadeiro karatê, isto é, o Karatê-Dō, busca, internamente, treinar a mente para desenvolver uma consciência límpida, que permita à pessoa encarar o mundo com sinceridade; externamente, busca desenvolver a força até que ela seja capaz de superar até mesmo animais selvagens ferozes.

Na verdadeira prática do karatê, mente e técnica devem se tornar uma só.

Aqueles que seguem o Karatê-Dō devem considerar a cortesia uma prioridade absoluta.

Sem cortesia, perde-se a essência do Karatê-Dō. A cortesia deve ser praticada não apenas durante o treinamento de karatê, mas também em todos os momentos da vida cotidiana.

O praticante de karatê deve se dedicar humildemente ao treinamento. Pode-se dizer que uma pessoa presunçosa ou arrogante não está qualificada para seguir o Karatê-Dō.

O aluno deve estar sempre atento às críticas dos outros e receptivo a elas; deve examinar constantemente a si mesmo e admitir prontamente qualquer falta de conhecimento, em vez de fingir saber aquilo que não sabe.

Aqueles que seguem o Karatê-Dō jamais devem abandonar a humildade de espírito e a gentileza no comportamento.

É o indivíduo de mentalidade limitada que gosta de se gabar ao adquirir alguma pequena habilidade; e aqueles que possuem pouco conhecimento, mas agem como se fossem especialistas, comportam-se de maneira infantil.

É por causa do grande número de falsos artistas marciais no mundo que o público tende a ignorar os praticantes de artes marciais ou a considerá-los pessoas selvagens. Por isso, muitos artistas marciais sérios sentem-se constrangidos.

Os praticantes de Karatê-Dō devem sempre manter esses pontos em mente.

Aqueles que seguem o Karatê-Dō desenvolverão coragem e fortaleza de espírito.

Essas qualidades não estão relacionadas a ações vigorosas nem ao desenvolvimento de técnicas poderosas em si. A ênfase é colocada no desenvolvimento da mente, e não nas técnicas.

Em um momento de grave crise pública, é preciso ter a coragem necessária para, se a justiça assim o exigir, enfrentar um milhão e mais um adversários.

Para o praticante de Karatê-Dō, a característica mais vergonhosa é a indecisão.

Durante muitos anos, dediquei humildemente minha vida à divulgação do Karatê-Dō entre outras pessoas.

Ao longo desses muitos anos, associei-me a várias gerações de companheiros entusiastas do karatê. Felizmente, minhas ideias foram compreendidas por eles, e sua profunda humildade e gentileza conquistaram o apoio entusiasmado do público.

Acredito que esse bom resultado seja um tesouro que encontramos juntos, por meio de nosso esforço mútuo no karatê.

Em poucas palavras, portanto, aqueles que buscam o karatê não devem se limitar à perfeição de suas técnicas. Pelo contrário, espero que dediquem suas vidas à busca do verdadeiro Karatê-Dō.

Isso porque a vida por meio do Karatê-Dō é a própria vida, tanto na esfera pública quanto na privada.