sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Cultive agora, para que a colheita seja duradoura!

Imaginem o tempo de O-Sensei'Funakoshi, em meio às suas grandes dificuldades antes, durante e depois da guerra, com precariedades presentes por todos os lados e incertezas diárias dos anos vindouros. O terremoto de 1923, desemprego, aumento da pobreza, tensões sociais, milhares de perdas humanas e materiais, cidades inteiras completamente destruídas, bombardeadas, escassez de alimentos e muitos produtos de primeira necessidade, milhões de pessoas afetadas pela guerra, falta de moradias e matérias-primas. E por conta da ocupação americana, mudanças políticas, econômicas e sociais, incluindo uma nova Constituição em 1947. Enfim, uma miscelânea de conflitos e aflições, praticamente inimagináveis para quem não passou por isso. E, mesmo assim, a disciplina, a inabalável determinação e o foco na formação de um espírito aguerrido, destemido, incorruptível, mantiveram firme a honorável e sublime causa do dever da superação interior e a busca incessante da autoafirmação e a concretização de um ideal superior.  

Chegará o dia em que todo iniciado no Karatê-Dō sentirá o peso do tempo perdido, durante o qual ignorou as inúmeras oportunidades de vivenciá-lo!

Prof.Sylvio Rechenberg

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Corrigindo distorções:

Alguns pontos importantes que frequentemente são apresentados de forma incorreta:


- Gichin Funakoshi'O'Sensei nunca deu o nome SHOTOKAN ao seu estilo.

- O nome Shotokan foi dado pelos alunos ao Dōjo inaugurado em 1939. 

- Gichin Funakoshi'O-Sensei aceitava o nome do prédio, mas NÃO defendia a criação de estilos separados.

- Gichin Funakoshi'O-Sensei NÃO criou o Karatê moderno!

- Ele próprio sempre afirmava que era transmissor do Karatê de Okinawa. 

- Enfatizava o aspecto do Dō (caminho).


- Características descritas por Funakoshi'O-Sensei sobre as aulas de Azato'Sensei:

* prática extremamente silenciosa;

* correções individuais;

* ausência de graduação;

* treinamento baseado exclusivamente em Kata;

* repetição incessante.

- Ele afirmava que Azato'Sensei raramente elogiava um aluno.

- Funakoshi'O-Sensei descreve que os treinos podiam durar horas dedicados a um único KATA.

- Funakoshi'O-Sensei ressalta que o Karatê-Dō JAMAIS é separado da formação moral.

- Em 1883 com idade de  15 anos, Azato'Sensei começa a permitir que o jovem Funakoshi observe conversas entre os mestres que frequentemente visitavam sua casa.

* Ankō Itosu'Sensei;

* Matsumura Sōkon'Sensei.

- Funakoshi'Sensei afirma que aprendeu tanto ouvindo essas conversas quanto durante os treinamentos.

- Em 1884, Azato'Sensei introduz discussões sobre:

* distância (maai);

* oportunidade (timing);

* controle emocional.

- Funakoshi'Sensei escreve que Azato'Sensei comparava o combate a uma partida de xadrez chinês, enfatizando o pensamento estratégico.


- Em 1885, Funakoshi'O-Senei inicia estudos mais aprofundados dos clássicos chineses.

- Ele considera que essa formação literária influenciou profundamente sua compreensão posterior do Karate-Dō.

- Em 1887 com idade de 19 anos Funakoshi'O'Sensei amplia seu contato com Ankō Itosu'Sensei.

- Embora Anko Azato'Sensei permaneça seu principal mestre, passa também a receber instruções diretas de Itosu'Sensei.

- Funakoshi'O-Sensei descreve ambos como complementares:

- Azato'Sensei:

* estrategista;

* reservado;

* extremamente exigente.


- Itosu'Sensei:

* pedagogo;

* sistemático;

* paciente


- O Karatê-Dō éra essencialmente centrado nos KATA, sem graduações, competições ou divisão em estilos. A ênfase era o aperfeiçoamento técnico e moral.

- Em 1908 Ankō Itosu'Sensei redige os (Dez Preceitos) (Tōde Jukun), dirigidos ao Ministério da Educação e às autoridades militares japonesas.

- Embora a autoria seja de Itosu'Sensei, esse documento influenciaria profundamente Funakoshi'O-Sensei e sua visão do Karatê-Dō como disciplina educacional.

- Os princípios incluem:

* desenvolvimento do caráter;

* fortalecimento físico;

* disciplina;

* utilidade para a sociedade;

* ensino coletivo.

- Esse documento não foi escrito por Funakoshi'O-Sensei, mas constitui uma fonte primária essencial para compreender o ambiente intelectual em que ele se formou e ao qual faz referência em seus escritos.


- Em 1921 com idade de 53 anos O-Sensei faz uma demonstração para o Príncipe Herdeiro Hirohito no Castelo de Shuri, Okinawa. 

- Durante a visita oficial do Príncipe Herdeiro (futuro Imperador Hirohito), Funakoshi'O-Sensei realiza uma demonstração de Karatê em nome dos praticantes de Okinawa.

- Este é um dos acontecimentos mais importantes da história do Karatê.

- Segundo a tradição preservada pela Shoto-kai, a demonstração causou excelente impressão e contribuiu decisivamente para o interesse das autoridades japonesas pela arte.

- Para Gichin Funakoshi'O-Sensei, essa demonstração NÃO representava um espetáculo esportivo.

- Seu objetivo era mostrar o que o Karatê era:

* disciplina educacional;

* método de formação moral;

* expressão da cultura de Okinawa.

- Essa concepção permanece presente em toda a sua obra posterior.

- O-Sensei NÃO partiu com a intenção de fundar uma escola no Japão. Seu objetivo inicial era apenas realizar a demonstração oficial.


- Em 1927 com idade de 59 anos, Funakoshi'O-Sensei intensifica a elaboração de um método pedagógico adaptado ao ensino coletivo.

* maior uniformização dos KATA;

* sistematização dos exercícios básicos (KIHON);

* organização das aulas.


- Em  1929, com idade de 61 anos O-Sensei'Funakoshi passa a utilizar oficialmente: 空手("Mão Vazia")em substituição ao antigo 唐手("Mão Chinesa").

- Funakoshi'O-Sensei vê essa mudança como uma expressão do caráter filosófico da arte, NÃO como uma simples alteração política.

- O "vazio" representava:

* desapego;

* ausência de ego;

* estado mental.

- Posteriormente escreveria: 

"Assim como um espelho polido reflete tudo sem distorção, a mente deve permanecer vazia."


- Em 1932 com idade de 64 anos, Funakoshi'O-Sensei dedica grande parte do tempo à revisão técnica dos KATA.

- Em 1935 com idade de 67 anos publica o Karate-Dō Kyōhan, esta obra representa a sistematização definitiva do pensamento técnico de Funakoshi'O-Sensei.

- Nela aparecem:

* fundamentos;

* KATA;

* princípios filosóficos;

* etiqueta;

* metodologia.

- Até hoje é considerada a principal referência técnica autorizada pelo próprio mestre.


- Formação da Shotokai:

- Em torno de Gichin Funakoshi'O-Sensei, organiza-se oficialmente a associação que dará origem à futura Dai-Nihon Karatê-Dō Shōtōkai, com a finalidade de apoiar seu ensino e viabilizar a construção de um Dōjo permanente. 

- Essa iniciativa parte dos discípulos, com o consentimento do mestre, e antecede a inauguração do edifício que receberia o nome Shōtōkan em 1939.

- Consolida-se a visão de Funakoshi'O-Sensei de que o Karatê-Dō deve ser um Budō, e NÃO um método de competição. Em seus escritos, ele insiste em princípios como:

「空手に先手なし」 (Karatê ni sente nashi) — "No Karatê não existe primeiro ataque!!";

* o aperfeiçoamento do caráter ACIMA da vitória física;

* a prática contínua dos Kata como núcleo da formação técnica e moral.


- Também é nesse período que amadurece a mudança terminológica de 唐手 (Tōde ou "Mão Chinesa") para 空手 (Karatê ou "Mão Vazia"), acompanhada da adoção da expressão Karatê-Dō, refletindo uma transformação filosófica e pedagógica, não apenas uma alteração de nomenclatura.

- Em 1935 já existe a mobilização dos discípulos para apoiar o mestre e publicar o Karatê-Dō Kyōhan.

* A Dai-Nihon Karatê-Dō Shōtōkai aparece formalmente organizada em 1936, e essa distinção deve ser preservada.

- Em 1936 com a idade de 68 anos, O-Sensei estabelece a adoção definitiva da expressão "Karatê-Dō".

- Organização da Dai-Nihon Karatê-Dō Shōtōkai

- Os discípulos formalizam a associação destinada a:

* apoiar financeiramente o mestre;

* organizar os treinamentos;

* construir um Dōjo permanente.

- É importante notar que Shōtōkai, significa literalmente "Associação de Shōtō" (Shōtō era o pseudônimo literário de Funakoshi'O-Sensei) e designa a entidade dos praticantes em torno de seu ensino e NÃO um "estilo" distinto.


- Em 1939 com idade de 71 anos em 29 de janeiro de 1939 acontece a inauguração do Shōtōkan.

- É inaugurado o Dōjo construído pelos discípulos de Funakoshi'O-Sensei em Zōshigaya, Tóquio.

- A fachada recebe a inscrição "Shōtōkan".

Aqui cabe um ponto fundamental:

- Gichin Funakoshi'O-Sensei JAMAIS escreveu que estava fundando um estilo denominado "Shotokan". Em seus livros, refere-se sempre ao Karatê-Dō.


- Em 1946, O-Sensei com 78 anos, no Japão do pós-guerra:

- Após o término da Segunda Guerra Mundial, o Japão encontra-se sob ocupação aliada.

- Grande parte das organizações de Budō tem suas atividades suspensas ou severamente restringidas.

- O Karatê-Dō, entretanto, por ser frequentemente classificado como educação física e disciplina de autodesenvolvimento, consegue retomar suas atividades mais cedo do que outras artes marciais.

- Em 1948 com idade de 80 anos, os relatos dos discípulos indicam que ele dedica cada vez mais tempo à reflexão filosófica do Karate-Dō.


- É importante notar que seus escritos desse período continuam enfatizando:

* caráter;

* humildade;

* prática contínua;

* ausência de espírito competitivo.


- NÃO há qualquer texto conhecido de sua autoria defendendo competições no Karatê!!

- Em 1951, O-Sensei com idade de 83 anos, Shigeru Egami'Sensei torna-se um dos praticantes mais próximos do mestre.

- Em 1953 com idade de 85 anos O-Sensei continua escrevendo e revisando seus ensinamentos.

- Os princípios do ( Dō ) tornam-se cada vez mais centrais em sua orientação.

- Em 1954 com idade de 86 anos, Os testemunhos preservados pela Shōtōkai indicam que Funakoshi'O-Sensei insiste na ideia de que o objetivo do Karatê-Dô JAMAIS deve ser vencer um adversário, mas vencer a si mesmo.

- Embora essa ideia apareça em seus escritos anteriores, ela ganha destaque especial nos relatos dos discípulos desse período.

- Em 1956 com idade de 88 anos, último ano completo de sua vida.

- Permanece cercado por discípulos próximos.

- Em 1957 com idade de 88 anos, em 26 de abril de 1957

 Gichin Funakoshi'O-Sensei falece em Tóquio.

- Com sua morte encerra-se a vida daquele que introduziu o Karatê-Dō de Okinawa no Japão continental e lhe deu uma formulação ética e educacional que marcou profundamente sua difusão.

- O testamento filosófico de Funakoshi'O-Sensei:

- Embora não exista um documento formal intitulado "testamento", os escritos finais do mestre deixam claros alguns princípios que atravessam toda a sua obra.


1. Karatê-Dō é Budō!

- O Karatê-Dō NÃO deve ser entendido como mero método de combate.

- Seu propósito principal é a formação do ser humano.

2. O Karatê-Dō começa e termina com Rei (礼)

- A etiqueta não é formalidade.

- É expressão permanente de respeito.

3. Não existe primeiro ataque

 空手に先手なし

(Karatê ni sente nashi)

- Esta máxima aparece repetidamente em seus escritos e sintetiza sua visão ética do Karatê-Dō.

4. O verdadeiro adversário é o próprio praticante

- A vitória mais importante é sobre:

* orgulho;

* medo;

* vaidade;

* impulsividade.

5. Kata como coração do Karatê-Dō.

- Em todas as obras técnicas de Funakoshi'O-Sensei, o Kata permanece como núcleo do treinamento.

- Ele JAMAIS propôs substituí-lo por competições.


CONCLUSÃO HISTORIOGRÁFICA


Ao longo desta cronologia, emerge um quadro consistente do pensamento de Gichin Funakoshi'O-Sensei:

* o Karatê-Dô é apresentado como um (caminho) de formação moral ( Dō );

* os Kata constituem o eixo central da prática;

* a competição NÃO ocupa papel estruturante em seus escritos;

* a associação Shōtōkai foi criada para sustentar seu ensino e preservar sua orientação;

* o termo Shōtōkan designava originalmente o Dōjo ("o salão de Shōtō"), NÃO um estilo criado por Funakoshi'O-Sensei.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

KATA, a prática correta!

Apontamentos de Tsutomu Ohshima'Sensei (aluno direto e de total confiança de O-Sensei'Funakoshi).

Kata, também chamadas de formas, são conjuntos de vinte a sessenta técnicas interligadas que representam o combate contra vários oponentes.

Foram criados no passado por mestres e gênios para transmitir suas ideias e conhecimentos às gerações futuras. Os Kata's contêm fragmentos de conhecimento transmitidos em ordem decrescente de sabedoria, de geração em geração. Mesmo que alguém cometa erros ao transmitir um Kata, algo da pessoa que o criou sempre permanece.

Nos primórdios do Shotokan, todos perguntavam a Funakoshi'O-Sensei quantos Kata ele conhecia, qual seria o próximo, e assim por diante. Vivenciei a mesma situação quando comecei a dar aulas fora do Japão. Muitas pessoas vinham apenas para memorizar a sequência dos Kata. Perguntavam-me quantos Kata eu conhecia e diziam que conheciam alguém que sabia 100. O mesmo aconteceu com Funakoshi'O-Sensei quando ele foi a Tóquio e teve que dizer que conhecia 60, 80 ou algum outro número. Talvez ele de fato conhecesse a sequência dessas diferentes formas, mas também sabia que o objetivo da prática de Kata não era memorizar a sequência ou criar uma coleção de múltiplas sequências e variações. Ele também sabia que todos os especialistas, os mestres de Okinawa anteriores a ele, conheciam apenas um pequeno número de Kata. E treinaram com esse pequeno número durante toda a vida. Consequentemente, a maioria deles conhecia apenas um ou dois. Talvez Funakoshi'O-Sensei fosse uma exceção. Talvez ele conhecesse dez, ou até menos. Mas, antes de deixar as ilhas de Okinawa, ele visitou seus amigos e muitos especialistas e coletou vários Kata, apenas para apresentá-los ao povo de Tóquio quando lá chegasse em 1922.

Quando fundou o Shotokan, após vários anos, ele teve que ser honesto com seus alunos e dizer que memorizar a sequência dos Kata não era a verdadeira prática do Kata. É por isso que, se você abrir o Karate-Do Kyohan de Funakoshi'O-Sensei, ele apresenta, como uma forma de autocrítica, o fato de ter introduzido muitos Kata diferentes em Tóquio. Alguns dos meus alunos mais graduados ficam extremamente felizes por acumularem diversos Kata diferentes e estão convencidos de que essa é a verdadeira prática do Kata. Já vi isso muitas vezes.
 
O problema é que, mesmo que você conheça 40 ou 50 Kata's, e mesmo que pratique cada um apenas 2.000 vezes, você ainda terá 100.000 Kata's para aprender. Praticar um Kata 2.000 vezes não permite que você domine nada. Memorizar muitos Kata's é uma tendência, mas Funakoshi'O-Sensei acreditava que esse não era o caminho certo para a prática do Karatê-Dō.

Por isso, guardo as palavras dele no Karate-Do Kyohan , porque tive a mesma experiência quando saí do Japão. Funakoshi'O-Sensei disse que até mesmo nossos 18 Kata's podem ser demais. Se você memorizar a ordem das formas e praticar uma ou duas como seus Kata's favoritos, esse é o caminho certo! Se você praticar um Kata de cinco a dez mil vezes, apenas começará a entendê-lo. De fato, levei bastante tempo para entender as formas do Tekki. Não sei dizer se cinco ou dez mil vezes é o suficiente, mas apenas que praticar menos é insuficiente. 

Originalmente, os Kata eram a única forma de praticar Karatê-Dō . Mais tarde, dividimos os Kata em técnicas básicas para aprimorar cada postura, cada movimento de quadril, cada bloqueio e ataque, ou para aprender a golpear com uma perna de apoio forte, e assim por diante. Depois, quisemos praticar Kata com parceiros para nos prepararmos para o combate real, então inventamos o Kumite. Mas todos os nossos fundamentos, todo o nosso Kumite, tudo vem do Kata. Com um Kata, você pode treinar com amigos e se superar. Você também pode praticar Kata por vários anos, mesmo que, às vezes, não esteja com vontade de treinar. Se você memorizar a sequência de um Kata e se acostumar com ela, se gostar, poderá se desafiar continuamente e refinar suas habilidades por meio da prática de Kata. Depois de certa idade, tenho certeza de que até mesmo os faixas-pretas mais graduados percebem que, sem a prática de Kata, não conseguiriam continuar treinando. Do meu ponto de vista, os Kata existem no Karatê-Dō como arte marcial há tanto tempo que não deveriam ser questionados. Alguns movimentos exagerados, extravagantes ou da moda são irreais. Nas décadas de 1940 e 50, nos Dōjos universitários do Japão, a maioria dos instrutores tinha pouco mais de 20 anos. Mesmo que fossem competentes em Kumite, suas habilidades em Kata não eram. Havia também alguns mal-entendidos, e uma mentalidade teatral os levava a exagerar certos movimentos do Kata. Hoje em dia, existem competições de Kata em que o julgamento não é de alto nível, e os movimentos são frequentemente executados muito lentamente ou muito rapidamente para impressionar os juízes ou o público. Por exemplo, os movimentos iniciais do Heian Yodan tornaram-se cada vez mais lentos. Quando aprendi este Kata, esses movimentos eram pouco mais lentos do que os do Heian Nidan.

Devemos lembrar claramente que cada movimento deve, acima de tudo, ser realista. Não podemos modificar ou exagerar certos movimentos do Kata para impressionar o público em geral. Os instrutores devem garantir que cada movimento do Kata esteja de acordo com o livro de Funakoshi'O-Sensei e seja executado exatamente como ele o descreve. Mas você pode se surpreender, pois há muitas omissões nesses Kata. No entanto, nós os praticamos como Funakoshi'O-Sensei os escreveu em seu livro, com as partes corretas e as seções incompletas, milhares de vezes até que os compreendamos completamente. Estas notas utilizam o Karatê-Dō Kyohan como referência. O número de movimentos listados aqui corresponde ao número de movimentos no livro do mestre. 

O Kata é uma luta realista, formalizada em suas linhas exatas, permitindo-nos praticar cada movimento repetidamente. Devemos ter um olhar atento e perspicaz para nos observarmos. Que tipo de postura estamos usando? Qual a posição do pé de trás? Se um oponente derrubar nossa perna da frente, como continuamos lutando? E quando bloqueamos, o bloqueio é realista contra um oponente que ataca com técnicas específicas? Ao executar uma técnica, estamos usando a técnica mais forte, o melhor Kime (energia concentrada) que podemos alcançar? Mesmo ao executar o Kata repetidamente, devemos imaginar situações de combate realistas em nossa mente. Por exemplo, quantas vezes eu disse a alguém para não fazer isso? Alguns sempre atacam com as pernas abertas, o estômago exposto, o pescoço exposto, o nariz exposto — todos os seus pontos vitais expostos. 

Assim, adotamos este tipo de programa de treinamento, no qual devemos sempre ter cuidado para não expor nossa linha central enquanto permanecemos nela. O ponto mais importante a enfatizar é como desenvolver uma mente clara e forte com o olhar. Olhe diretamente para o seu oponente, sem desviar o olhar. Isso ajudará a tornar a mente clara, forte e alerta. É por isso que enfatizamos o olhar como sendo de importância primordial. Quando encontrarmos as partes difíceis ou complicadas de um Kata, devemos repeti-las muitas vezes. Algumas partes do Kata são muito fáceis. Outras são muito difíceis. Se certas partes do Kata lhe causarem desconforto, selecione-as para treinamento específico e repita-as mais vezes do que as partes fáceis.
 
Estamos sempre nos observando para melhorar. Este é o ponto-chave na prática do Kata. O início do Kata é o momento mais importante. Quando você está em Shizentai ou outra forma de Yoi, sua mente deve estar em todas as direções. Em outras palavras, você não tem uma ideia ou direção específica, mas sua mente está alerta. Então, no momento em que você começa, seu senso de direção se volta para o primeiro oponente, e seus olhos e quadris começam a se mover nessa direção. A primeira técnica surge naturalmente desse movimento inicial. E lembre-se de que estamos sempre praticando para uma situação da vida real; espero que todos os praticantes mais experientes possam praticar Kata não apenas no Dōjo, mas em qualquer lugar onde haja espaço, seja em uma área rochosa, lamacenta ou na praia. Naturalmente, não podemos ensinar iniciantes em uma área rochosa. Esta prática é um projeto pessoal dos praticantes mais experientes. 

Quando praticamos um Kata, não se trata apenas de memorizar a ordem da forma. Precisamos internalizar cada movimento, e isso requer pelo menos milhares de repetições. Primeiro, aprendemos a sequência do Kata de cor. Se você a repetir 1.000 vezes, seu Kata ficará muito melhor do que antes. Se você a repetir 2.000 vezes, seu Kata se tornará mais poderoso e, ao mesmo tempo, você aprenderá o que fazer com cada técnica. Se você o praticar 3.000 vezes, seu Kata parecerá melhor, com bloqueios, ataques e técnicas de perna eficazes e realistas. Então, começamos a aprender não apenas bloqueios e ataques realistas, mas também ritmo e tempo, lentidão e velocidade, firmeza e suavidade, e onde contraímos e defendemos nosso corpo. Após 5.000 repetições, seu Kata começa a se tornar verdadeiramente seu. Mas isso não é tudo. Também aprendemos a respirar idealmente sem instruções dos instrutores, cada um de nós descobrindo por si mesmo como respirar corretamente. Aprendemos a executar o Kiai — cada Kata geralmente tem dois — com a respiração mais forte do Kata. E, após alguns anos, começamos a sentir o que os mestres ou especialistas que criaram o Kata sentiram. Começamos a sentir o que esses gênios, que praticaram por tantos anos, tentaram nos transmitir. E, embora sigamos o que eles nos dizem por meio da prática do Kata, encontramos nosso próprio ritmo, nossas próprias sensações, nossas próprias interpretações. Finalmente, atingimos o nível em que podemos expressar nossa melhor energia, tanto em força quanto em sutileza, dentro do Kata. Mesmo que cada um de nós execute o mesmo Kata, sem mudar nada, sem nenhum movimento específico, ainda assim temos nosso próprio Kata. Acho que é assim que devemos praticar nosso Kata.

Tsutomu Ohshima'Sensei  (Detém o grau de 5º Dan (godan), concedido pessoalmente por Gichin Funakoshi'O-Sensei. Ele nunca aceitou uma graduação superior porque este era o grau máximo concedido por seu mestre.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Displicente

Quando optamos por escolher o Karatê-Dō, no sentido de, através dele, nos autoaperfeiçoarmos nas nossas ações para que o nosso dia a dia se torne capaz de ser vivenciado, enfrentado e superado de uma forma mais segura, saudável, digna e justa, muitos talvez não imaginavam que para que isso aconteça verdadeiramente é preciso muito mais do que dar chutes e socos contra inimigos imaginários ou decorar formas de autodefesa.

Tenho certeza de que muitos nem ao menos se importam se estão ou não no "caminho" a que me refiro. Acredito mesmo que, para a maioria, na verdade, é uma prática de "luta" como outra qualquer e, portanto, frequentar aulas alguns dias por mês está mais do que suficiente. Ledo engano!

Ainda que o Karatê-Dō seja praticado apenas para "aprender" a se defender em vias de fato, praticá-lo com NEGLIGÊNCIA é o mesmo que acreditar na ilusão. Imaginar que uma simples prática com centenas de técnicas ofensivas e defensivas e lutando em torneios e campeonatos é capaz de tornar alguém realmente capaz de enfrentar um agressor destemido é, na verdade, um erro fatal! Sem noção, notoriamente nocivo.
Para "aprender" e praticar o Karatê-Dō você não deve pensar como um atleta, ou como um esportista, ou como um entusiasta aloprado, ou como um bad-boy de carteirinha. Para aprender o Karatê-Dō de O-Sensei'Funakoshi basta você compreender que não importa o momento em que você está na sua vida, o que importa é a constância, a sinceridade e com que verdade você o pratica!

Prof.Sylvio Rechenberg

sábado, 8 de agosto de 2026

Intenção!!

Você pode esmurrar um makiwara ou um sunatawara milhares de vezes todos os dias da semana, meses a fio, anos, a vida toda, mas se o teu propósito é fazer isso para ganhar de alguém, então nada de bom se acrescenta em ti, mas se ao invés de ganhar você pensa em não perder, então tudo muda com o ego vencido.

Prof.Sylvio Rechenberg

terça-feira, 28 de julho de 2026

"Técnicas secretas"

Antigamente — nos tempos realmente antigos — tudo podia ser um segredo. Se você não soubesse, era um segredo, pelo menos para você. Existem, no entanto, segredos de verdade. Alguns são apenas truques que aprimoram sua técnica, enquanto outros são genuinamente "técnicas secretas". Podem ser para combate ou cura. Podem ser tão simples quanto uma mudança na forma da mão, ou uma versão diferente de um kata/sistema inteiro. Contudo, nada disso importa necessariamente em uma luta real. Você pode conhecer todas as técnicas especiais que existem, mas elas sozinhas não o salvarão. Somente o treinamento básico, árduo e diário pode fazer isso. E nada pode substituir o grande esforço necessário. E então, todos os chamados segredos serão alcançados naturalmente, de qualquer forma, porque esse esforço incessante nos fundamentos e princípios básicos leva aos truques, segredos e técnicas especiais através do desenvolvimento gradual da compreensão, que não pode ser apressada, pois a mente é complexa e leva tempo para aprender e tornar as coisas instintivas. A habilidade progride continuamente ao longo da vida do praticante. Técnicas especiais não podem ser compreendidas, nem aplicadas de forma eficaz, ou mesmo responsável, sem antes alcançar os grandes benefícios transformadores do treinamento básico diligente e retornar constantemente aos fundamentos como se eles fossem o sistema completo em si mesmos. Em uma luta real, as habilidades, o controle e a fortaleza adquiridos durante um extenso treinamento básico lhe darão uma chance de sobreviver, quer você não conheça nenhum segredo, quer conheça 100 técnicas secretas. O conhecimento de certos pontos por si só não lhe proporcionará a velocidade, a resistência e as habilidades básicas necessárias para se defender e, se necessário, defender os outros. Portanto, os verdadeiros segredos residem simplesmente no treinamento diário e diligente dos fundamentos (desde que o que você aprendeu seja eficaz), e as técnicas especiais servem para aumentar a eficácia em certas situações, mas não são o que define um lutador/boxeador/guerreiro competente. A velocidade e a ferocidade dos ataques em situações reais podem ser impressionantes. Lutar de verdade não deve ser encarado levianamente. É perigoso e exige, principalmente, aquilo que somente os fundamentos podem proporcionar. 

Texto resumido, publicado por (船越 Okinawano-Chinês Kenpo)

sábado, 18 de julho de 2026

Budō

Budō : " A palavra "Bu" do "Budō " é escrita com o ideograma chinês que significa reprimir, inserido dentro de outro, formado por duas alabarbas cruzadas e seu significado real é parar o conflito!"

Gichin Funakoshi'O-Sensei

                      Isao Obata'Sensei  e  O-Sensei  (demonstração)  

空手本土普及三十周年記念講演会 "Demonstração comemorativa dos 30 anos da difusão do Karatê-Dō  no Japão continental" - 1953.            

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Pra que praticar sem vontade de "lutar"?

O-Sensei'Funakoshi idealizou a sua Honorável Arte, o Karatê-Dō para que fosse praticada em qualquer época da vida e para a vida toda. O objetivo dessa prática é a autodefesa em todos os sentidos, tanto para ser utilizada num confronto FÍSICO direto, quando a vida estiver em perigo, quanto no aspecto MENTAL, onde a capacidade de superar-se nas diversas dificuldades do dia a dia na vida cotidiana está constantemente sendo colocada à prova, tanto no aspecto ESPIRITUAL, onde reside a nossa íntima relação com o Divino que nos rege nas ações, reações, sensações e intuições, está presente na nossa consciência que nos adverte, controla e atua distinguindo o certo do errado e que nos permite ter a certeza do amor verdadeiro e do privilégio de perdoar. 

Esses são os TRÊS PILARES que formam o Karatê-Dō de O-Sensei, e é dessa maneira que deve ser cultivado!
Quantas vezes a tua vida já foi ameaçada por outra pessoa? Se o foi alguma vez, que bom que ainda está lendo esse texto.
Quantas vezes você já precisou superar dificuldades dentro e fora de casa?
Quantas vezes você já agradeceu a Deus, consciente ou inconscientemente, pela vida e pelas coisas que te fizeram ser quem tu és?
Pois esse é o "caminho" do Karatê-Dō, onde, por meio de uma dura disciplina, você condiciona o corpo fortalecendo a mente, engrandecendo o espírito!
Mas, para que isso seja compreendido, assimilado e absorvido, NÃO é só decorar os Kata, executar socos e chutes contra alguém ou exibir uma faixa na cintura. Antes, porém, dessa do pódio sustentado pelo ego, saia da zona de conforto e manifeste o suor da tua fronte.

Prof.Sylvio Rechenberg

domingo, 28 de junho de 2026

O ser e o "Ser"

É da natureza humana o sentimento de superioridade que brota quando se obtém um resultado que nos coloca numa posição de destaque em relação aos outros. Ser mais, ter mais, ser mais capaz, ter vantagem, chamar mais atenção...
Ser o 1° é algo empolgante que mexe com o sentimento em todas as áreas que envolvem a participação do homem, dito "moderno". Ser o 2° ou o 3° já perde a relevância no meio em que vivemos, logo a expectativa de ser admirado, invejado, cobiçado, reconhecido, se torna frustrada.
Portanto, desde que haja alguém com quem possamos nos comparar, corremos o risco de cairmos nas armadilhas da ilusão.
Considerando a natureza humana, a fragilidade do homem NÃO está no aspecto físico, mas na capacidade de lidar com suas limitações frente aos demais.
Enquanto para muitos ser o 1° é a razão, para outros a razão é o "Ser"!

Prof.Sylvio Rechenberg

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A luta real não é um jogo!

Nem todas as competições de artes marciais são prejudiciais ao desenvolvimento de habilidades para uma luta real. Elas podem, no entanto, ser degradantes para o desenvolvimento positivo do caráter, mas isso depende do indivíduo e de seus instrutores. Nem todo boxeador de estilo ocidental é arrogante e agressivo, por exemplo. O problema é que, em certos tipos de luta profissional, o perigo é eliminado. Isso é particularmente verdadeiro quando se utiliza equipamento de proteção. Não é um método eficaz, pois serve apenas para auxiliar o esporte, enquanto é extremamente prejudicial à sua capacidade de lutar de verdade, estar preparado para lidar com a adrenalina de um conflito real ou ter o nível de preparo mental necessário para uma luta real. Se você consegue acertar alguém porque essa pessoa está usando proteção, ela não se importa porque sabe que não vai se machucar. E vice-versa. O elemento de perigo, como se você e seu(s) oponente(s) estivessem em uma situação de vida ou morte, é imprescindível para o treinamento adequado de suas habilidades de luta.

Publicado por (船越 Okinawano-Chinês Kenpo)


O-Sensei'Funakoshi já advertia sobre isso, PROIBINDO a competição no Karatê-Dō em 1940 e em 1941 ratificou esta proibição, advertindo aos estudantes que eles seriam EXPULSOS caso participassem de campeonatos!!

Prof.Sylvio Rechenberg

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Hipócrita

Ou você é um praticante de Karatê-Dō, ou não é!

Minoru Higa'Sensei  (Kyudokan - Okinawa)

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Arte Marcial e a "distorção"!

As pessoas que não querem seguir os ensinamentos do Zen, a verdadeira base do Bushidō, não precisam fazer isso. Elas estão simplesmente usando as Artes Marciais como diversão; para elas, são esportes como quaisquer outros. Mas as pessoas que querem viver suas vidas em uma dimensão mais elevada “precisam compreender”.

Ninguém pode ser obrigado e ninguém pode ser criticado. Uns são como crianças brincando com carros de brinquedo, e os outros dirigem carros de verdade. Eu não tenho nada contra esportes; eles treinam o corpo e desenvolvem a energia e a resistência. Mas, o espírito de competição e a energia que cerca isso não é uma boa coisa, isso reflete uma visão distorcida da vida.

A raiz das Artes Marciais não está aqui!

Os professores são parcialmente responsáveis por essa situação, eles treinam o corpo e ensinam as técnicas, mas não fazem nada pela consciência. E o resultado disso é que seus alunos lutam para vencer, como crianças brincando de guerra. Não existe sabedoria neste ponto de vista e ele é completamente inútil para a organização de suas vidas.

Qual é a utilidade de suas técnicas na vida diária de cada um deles?

Os esportes são apenas diversão e, no final, devido ao espírito de competição, eles desgastam o corpo. É por isso que as Artes Marciais deveriam lutar para recapturar sua dimensão original.

No espírito do Zen e do Budō, a vida diária se torna a competição. Devem existir prêmios a cada momento – ao se levantar pela manhã, ao trabalhar, ao comer, ao ir para a cama.

Autoria: Taisen Deshimaru (弟子丸 泰仙)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O Karatê Tradicional.

O Karatê costumava ser chamado de “Ti” (ou “Tê”, 手)", que significa "Mão".

Isso significa que "Mão" é Karatê!

Originalmente, o Tsuki era o mais importante, por isso eu o pratico.

Competições (esportes) criaram muitas novas técnicas.

O que existia antes de se tornar esporte era o “Ti” (ou “Tê”, 手)".

Em uma luta real, uma vez que você inicia o contato, você nunca se afastará do seu inimigo.

Até que termine.

Você nunca conseguirá se distanciar em uma luta real.

Hoje em dia, há um árbitro.

Não existem competições ou jogos para o Karatê de Okinawa!

Mas, cada escola tem seu jeito original, eu também tenho o meu.

Chutar é bom, mas é fácil ser derrubado.

Porque você está apoiado somente em um pé.


Minoru Higa'Sensei  (Okinawa)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

“Ti” (ou “Tê”, 手) - A arte da Mão de Okinawa

"Ti" é intensa e especificamente pessoal. No Shinjinbukan nos referimos ao "Ti" de Onaga'Sensei. A "Ti" não se sustenta sozinha como um sistema ou currículo para ser lido e manualizado; "Ti" pertence a uma pessoa e é passada de indivíduo para indivíduo na tradição oral do Dôjo tradicional de Okinawa. Quando uma pessoa começa a aprender "Ti", fica mais fácil reconhecer aqueles que "não têm Ti" em seu Karatê. Aqueles que treinaram e aprenderam "Ti" por muitos anos podem olhar para os indivíduos que praticam Karatê e apontar aqueles que não parecem entender o que estão fazendo.

"Ti" é, acima de tudo, aprender a nunca perder. Isso é muito diferente das escolas de "karatê esportivo" que ensinam seus alunos a vencer. Aprender a nunca perder é treinar o corpo na forma adequada (Kata); treinar os pés, pernas e quadris de como movimentar o corpo; treinar os braços e as mãos para tocar um oponente e mudar (Findi) quando necessário; treinar os polegares e pulsos para permitir que seus punhos penetrem no alvo. Essas coisas, em parte, são "Ti". Aprender a nunca perder é aprender a pensar sobre o seu Karatê usando os princípios da "Ti".

"Ti" não é um círculo, mas uma esfera. Ele está se movendo ao redor e dentro dessa esfera. É o som de makiwara atingido corretamente, emanando a característica de "ping" de alta intensidade dos Tsuki efetivos. "Ti" é movimento e mudança constante. "Ti" está sabendo como fazer o contato inicial com o oponente e saber o que fazer antes, durante e depois do toque inicial, que permitirá nunca perder. Karatê sem "Ti", está apenas socando e chutando. O "Ti" que treinamos no Shinjinbukan foi transmitido de Onaga'Sensei para seu "deshi" e a seus alunos e não pode ser definido de qualquer forma sucinta, assim como as tradições de toda uma cultura podem estar contidas em um livro escolar. Onaga'Sensei diria que "Ti wa chiie" — "Ti" é sabedoria, significando que é uma maneira de entender ou pensar sobre técnica e teoria de combate. Um termo análogo seria o uso de Miyamoto Musashi do termo "Heiho" — estratégia. É assim que usamos o termo "Ti".
Uma vez aprendido, "Ti" muda irrevogavelmente o modo como um indivíduo vê seu Karatê.

Escrito por: Dr. Timothy Black

terça-feira, 28 de abril de 2026

O Karatê-Dō de O-Sensei'Funakoshi

Originalmente, essa era a coisa mais importante sobre artes marciais - atingir um nível mais alto, se tornar um ser humano "forte". Forte não significa braços grandes. Significa quem pode ser um ser humano mais "rigoroso consigo mesmo". Esse é o ideal das artes marciais!

Tsutomu Ohshima'Sensei  (Foi aluno de confiança de O-Sensei'Funakoshi)

domingo, 26 de abril de 2026

VIGÍLIA DE SHOTO - 2026.

Todo praticante sério de Karatê-Dō tem a obrigação de conhecer a verdade por trás dos fatos que levaram ao profundo descontentamento de O-Sensei'Funakoshi nos seus últimos anos de vida, lamentando-se a que chegou o mundo do Karatê-Dō atual.

Segue o link da CRONOLOGIA de O-Sensei'Gichin Funakoshi:

sábado, 18 de abril de 2026

Kanku-Dai, remete a um conceito formador. (reflita)

Conceito formador:

"Estudar Karatê-Dō não é olhar de cima, mas para cima!"


Da terra do sol nascente surgiu uma arte extraordinária que encanta gerações e gerações mundo afora, e tem uma premissa inviolável e surpreendentemente inquestionável, lapidar o caráter transformando atitudes e assim apaziguar o ego para conter os conflitos, o propósito fundamental da Honorável Arte de O’Sensei Gichin Funakoshi! Por meio de uma sabedoria milenar que demonstra claramente e de maneira objetiva um “Caminho” de como travar uma batalha com o maior dos inimigos, aquele que está dentro de nós mesmos e que constantemente nos tenta coagir, corromper, desviar do “Caminho” real, estimulando e incentivando-nos a agir de forma equivocada, imprudente e fantasiosa, provocando em nós uma falsa sensação de felicidade e realização aparente, contudo, completamente destrutiva e nociva para um correto crescimento espiritual e uma vida plena de Paz e verdadeiro amor! E, utilizando as mãos, os cotovelos, os antebraços, a cabeça, os pés, os joelhos, as canelas, enfim, todo o corpo como em uma luta pela sobrevivência, compreendemos que não precisamos competir com alguém para provar superioridade, pois a doutrina do “Caminho” se basta! A questão não está em ser melhor que os outros, mas em, com os outros, aprender mais sobre nós mesmos sem determinar ganhadores ou perdedores, sem colocar em evidência a tola satisfação com a derrota do outro valorizando justamente o que deve ser combatido, o ego primitivo e decadente. Compreender que a natureza do “ego” é promover conflitos para uma tola e imatura satisfação pessoal sobre a insatisfação do outro, o que nada mais é do que aquilo que se vê em qualquer esporte! Logo, nada tem haver com “Budō” (conter o conflito)! Aprende-se que a fraqueza que está em nós e se manifesta contra o outro é causada pela nossa própria baixa estima e que se sobrepor ao outro para se sentir realizado é a razão pela qual precisamos travar este combate, que em verdade tem haver com um processo de auto aperfeiçoamento construtivo, que visa à busca incessante por um ideal maior, fazendo-nos olhar o mundo de uma forma diferente, onde a grande recompensa está em confrontar-nos, reconhecer os nossos erros, defeitos e limitações, purificando a nossa mente para então poder enfrentar cada dificuldade em nossa vida com o mesmo espírito de luta com que aperfeiçoamos a nossa Arte do Karatê-Dō de O’Sensei Funakoshi, cultivando em nós uma agradável sensação de gratidão pela vida, pela Paz e o bem estar interior! A Honorável Arte está ao alcance de todas as pessoas que buscam este alicerce em suas vidas, agregando experiências construtivas sem precisar para isso derrotar os demais, mas unicamente diante da consciência universal compreender que estudar Karatê-Dō não é um “olhar de cima” para o mundo ou para alguém, com prepotência, arrogância ou insignificância, mas um “olhar para cima”, com elevação espiritual e genuína gratidão, admitindo o quanto somos pequenos diante da natureza divina e que nada que façamos ou sentimos contra alguém nos fará maiores do que somos diante de Deus e que somente haverá uma transformação real em nossas vidas quando o objetivo verdadeiro estiver alcançado!

Prof. Sylvio Rechenberg     

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O-Sensei'Funakoshi advertia sobre o "conflito":

"Se dois tigres lutam, um está destinado a ficar ferido e o outro a morrer."

松村 宗棍 Sōkon Matsumura (1797-1889)

sábado, 28 de março de 2026

KANKU-DAI executado por  Teruyuki Okazaki'Sensei (1931–2020).

Embora com algumas pequenas diferenças na versão atual, pode-se perceber a presença constante do foco, da participação efetiva de todo o corpo durante a execução, ritmo e velocidade correta e com uma consciência corporal permanente, equilíbrio e enraizamento de base, um constante estado de "mente calma" e determinada, Kime no tempo certo, quadril em conexão permanente tanto na execução de cada técnica quanto nos descolamentos e nas mudanças de base, a base com o quadril gerando a técnica, e cada técnica com aplicação real em mente. 

Prof.Sylvio Rechenberg

quarta-feira, 18 de março de 2026

Kanku-Dai (観空大)

Kanku-Dai (Texto resumido)

“ Kwan ” significa olhar para cima ou ver através. “ Ku ” significa céu, vazio, nada. Então você pode simplesmente dizer “olhe para o céu” (porque quando você começa o  Kata , suas mãos se elevam) ou, de uma forma mais filosófica, “veja através do vazio” (com a sensação de ver a verdade através do vazio, ou algo assim). Esse "vazio" não é a ausência de todo pensamento, mas a ausência de pensamentos egoístas, preocupações pessoais e ansiedade sobre o que acontecerá. Quando esses pensamentos inúteis passam, a consciência clara e forte do que realmente está acontecendo se instala em sua mente. Esse é o significado de Kwanku.

Originalmente, Kwanku era pronunciado como é escrito atualmente, mas o japonês moderno passou por algumas simplificações, até que o "w" se tornou mudo e o  Kata  passou a ser pronunciado "Kanku".

Antes de O'Sensei renomeá-lo, esta forma era chamada de Kushanku. (...) há mais de 300 anos (por volta de 1660) e é um apelido amigável que as pessoas usavam para o Kata. Kushanku é chinês com pronúncia okinawana (mais ou menos), mas os japoneses (do continente) o pronunciam Koshokun. São os mesmos caracteres, mas com pronúncia diferente.

(...) nas ilhas de Okinawa, existem muitas maneiras diferentes de executá-lo. Algumas pessoas o dividem em duas ou três versões. Por exemplo, existe o Kushanku Dai (grande), o Kushanku Sho (pequeno) e o Kushanku Tomari (para uma pequena cidade nas ilhas).

Como vocês sabem, este era o Kata favorito do O-Sensei'Funakoshi. Ele ainda demonstrava Kwanku mesmo depois dos 70 anos. Vimos seu Kwanku muitas vezes. Claro, quando o vi, ele não conseguia executar um chute duplo com salto muito alto, mas ainda assim praticava Kwanku. Portanto, todos os praticantes de Shotokan devem praticar Kwanku bastante. Espero que muitas pessoas gostem de praticar este  Kata.

Kwanku é verdadeiramente um  Kata  fundamental. Embora seja longo, ainda o considero um Kata  básico. Cada movimento deve ser preciso e, mesmo sendo uma forma longa, devemos manter o ritmo e ser capazes de executar um Kata unificado. Depois de praticar este  Kata  muitas vezes, seu corpo começa a seguir sua mente.

Todos  os praticantes de Shodan  devem praticar Kwanku 5.000 vezes antes de fazer o  exame para Nidan, mas mesmo os praticantes mais experientes precisam aprimorar sua técnica. (Se você já praticou 5.000 vezes, desafie-se a praticar 10.000.) Kwanku é um  Kata longo  e você ficará muito cansado, mas quando você é jovem, deve praticá-lo bastante.

(...) Todos devem estar em boa forma física, e os praticantes mais experientes devem aprender a executar o Kwanku sem enrijecer ou usar tensão muscular excessiva, especialmente nos ombros e músculos dos braços, que devem estar relaxados. Cada técnica deve ser executada com boa sensibilidade.

Não acho que tenhamos muitos problemas com a ordem deste  Kata, mas se você achar algumas partes mais difíceis, pegue essas partes e repita-as várias vezes antes ou depois  do treino do Kata. É muito mais fácil em grupo. Por exemplo, lembro-me de vários movimentos no Kwanku, onde você gira, desce e gira novamente para fazer o  Shuto-Uke  (movimentos 42-45), que tivemos que praticar de 50 a 100 vezes depois de duas horas de treino. Praticamos essa parte muitas vezes e, depois, todos conseguiam fazê-la sem problemas. Portanto, se você sentir alguma dificuldade com certas partes, simplesmente repita-as várias vezes. Não pule nenhum movimento menor e sempre tente executar a forma exata do  Kata  a cada vez. Essa é a única maneira de aprimorar seu  Kata.

Existem movimentos típicos do Kwanku, por exemplo, após executar um  ataque Shuto  , desferimos um chute e giramos para trás. Nesse movimento, realizamos  Kime  (concentramos nossa força) com a rotação dos quadris. Assim, mesmo girando os quadris, mantemos o equilíbrio e visualizamos vários oponentes ao nosso redor.

O criador original do Kwanku idealizou oito oponentes. Se você consegue enfrentar oito oponentes, consegue enfrentar muitos mais. Antes mesmo de enfrentar o primeiro, você já decidiu que não vai parar até destruir todos eles. Esse era o conceito original do Kwanku

A abertura dos dois movimentos do Kwanku é uma lição muito importante sobre respiração. Costumávamos executar o  Kata  respirando externamente durante todo o movimento (levantando os braços, separando-os e juntando-os novamente). Agora, inspiramos durante o primeiro movimento até que os braços atinjam o ponto mais alto. Então, à medida que os braços se separam, começamos a expirar. Neste movimento, atraímos o oponente para nós enquanto inspiramos, mas, pouco antes de ele começar a atacar, expiramos com força com nosso contra-ataque e respondemos à plenitude da respiração do oponente com a nossa própria.

No sexto movimento do  Kata, esticamos os joelhos, contraímos os glúteos e imediatamente golpeamos com o punho. O punho deve conectar-se com todo o corpo, e tudo deve ser um só, não apenas fisicamente, mas também mentalmente. Esse alinhamento deve ser pleno. Esta é uma maneira de fazer  Kime.

Os  golpes Shuto  nos movimentos 16, 21 e 36 são diferentes do  Shuto  no movimento 11 do Heian-Yondan. Devemos distingui-los claramente. Observe a relação entre as mãos e os pés em ambos  os Kata's  para estudar as diferenças nos movimentos. No Kwanku, executamos esse golpe girando os quadris bruscamente e sincronizando o movimento do quadril com o movimento da mão. O quadril deve girar completamente. Este é o ponto-chave, este  Kime específico  que os especialistas em Kwanku tentaram nos transmitir.

Após o  Shuto-Uke  (nos movimentos 16 e 21), temos uma série de movimentos onde projetamos abruptamente a mão aberta para a frente, em um nível mais baixo, duas vezes (movimentos 18-19 e 23-24). O-Sensei'Funakoshi não é claro quanto ao significado desses movimentos e, por muito tempo, pensamos que todos eram ataques à virilha. Agora sabemos que o primeiro movimento em cada série é, na verdade, projetar a mão e o braço contra um chute (Mae-Geri). Após os ataques  Shuto , gire o corpo para ficar de frente para o chute (Mae-Geri). Estenda a mão e o braço direitos para desviar o chute para longe do seu corpo. Sua mão esquerda protege contra um ataque simultâneo com a mão no rosto e se prepara para empurrar a parte superior do corpo do oponente. Leve a mão direita por baixo da perna do oponente que está chutando, levante-a e empurre com o braço esquerdo para projetar o oponente. Certifique-se de que seu braço direito esteja alinhado com o corpo, com o cotovelo logo acima da altura do ombro. O próximo movimento é um ataque à virilha, provavelmente contra outro oponente.

Como mencionei anteriormente, os movimentos em que você gira e desce (movimentos 42 a 45) podem ser muito difíceis. Fique em pé, reto, após finalizar o soco duplo do movimento anterior (movimentos 40 e 41); você precisa sentir seu oponente atrás de você. Se você não o sentir, não conseguirá bloquear com força por trás dele. Portanto, você precisa sentir seu oponente. Então, ao girar, certifique-se de que suas mãos subam e passem pela coxa e pelo joelho, terminando em frente ao seu peito e rosto. Você está se chocando contra o ataque do seu oponente e deve sentir como se o estivesse penetrando completamente. Seu corpo precisa avançar. Se você se inclinar para trás, seu oponente o empurrará para trás.

Para a próxima técnica (movimento 43), deixe seu corpo cair no chão com as palmas das mãos ou as pontas dos dedos apoiadas no solo (qualquer técnica serve). Em seguida, gire para trás e execute um bloqueio de nível inferior com  Shuto  para proteger o joelho de trás. Certifique-se de girar o pé direito simultaneamente, perpendicularmente à linha do bloqueio. Se o pé não estiver girado na direção correta, a postura ficará fraca e o bloqueio menos eficaz. (...)


Palavras de Tsutomu Ohshima'Sensei (Foi aluno de confiança de O-Sensei'Funakoshi)