quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Do livro, "Karatê-Dō o meu Modo de Vida" (pag.42)

A Vitória através da Derrota.

...A estrada solitária para Mawashi serpeava por alamedas de pinheiros grossos, e no início da noite já estava bastante escuro; assim, fui pego de surpresa quando dois homens saltaram inesperadamente do abrigo das árvores para o meio da estrada para impedir minha passagem. Como os outros presumidos atacantes, eles haviam coberto o rosto com toalhas. Ficou imediatamente evidente que não estavam apenas inclinados a provocar uma luta bem-intencionada. “Bem”, gritou um deles insolentemente, “não fique aí parado como se fosse surdo e mudo. Você sabe o que queremos. Fale! Diga ‘Boa tarde, senhor’, e diga-nos como o dia está bonito! Não nos faça perder tempo, coisa miúda, ou vai se arrepender. Dou a minha palavra!” Quanto mais eles ficavam irritados, mais calmo eu me sentia. Pelo modo como o que falara comigo fechou os punhos eu podia dizer que não era um praticante de Karatê; e o outro, que segurava um bordão reforçado, também era um amador. “Vocês não estão me confundindo com outra pessoa?”, perguntei calmamente. “Com certeza, deve haver um mal-entendido. Acho que se a gente conversasse sobre isso... “Ah, cala a boca, nanico!”, rosnou o homem com o bordão. “Por quem você nos toma? ”Dizendo isso, os dois se aproximaram um pouco mais de mim, mas não me senti intimidado nem um pouco. E disse, “ Parece que vou ter de brigar com vocês, mas aviso francamente e aconselho para não insistirem. Acho que não vai ser nada bom porque...” Nesse momento, o segundo homem levantou o bordão, “porque”, continuei rapidamente, “se eu não tivesse certeza de vencer, não lutaria. Sei que vou perder. Então, por que lutar? Isso não faz sentido!” A essas palavras, os dois pareceram acalmar-se um pouco. “Bem”, disse um deles, “você certamente não poderia oferecer muita resistência a uma luta. Vamos ver seu dinheiro então!” “Não tenho nenhum dinheiro”, respondi, mostrando-lhes meus bolsos vazios. “Fumo, então!” “Não fumo.” Tudo o que tinha era um pouco de inanju, bolos que estava levando para oferecer no altar na casa do pai de minha mulher. Disse, então, “Vejam, tomem isso. “Só manju!” O tom era de desdém. “Bem, melhor do que nada.” Pegando os bolos, um dos homens disse, “Melhor ir andando, nanico. E tenha cuidado, o caminho é um tanto perigoso.” Com isso, desapareceram entre as árvores. Alguns dias mais tarde aconteceu de me encontrar com Azato e Itosu juntos, e no curso de nossa conversa contei-lhes o incidente. O primeiro a me elogiar foi Itosu, que disse que eu havia me comportado com a maior propriedade e que agora considerava que as horas que tinha utilizado ensinando-me Karatê tinham sido as mais proveitosas que passara. “Mas”, perguntou Azato, sorrindo, “como você não tinha mais o manju, o que ofereceu no altar de seu sogro?” Respondi: “Já que não tinha mais nada, ofereci uma oração profunda e sincera.” “Ah, bom, bom!”, completou Azato. “Você fez bem, realmente, esse é o verdadeiro espírito do Karatê! Agora você está começando a compreender o que ele significa.” Tentei abafar meu orgulho. Embora os dois mestres nunca tivessem elogiado um Kata sequer durante as sessões de prática, estavam me enaltecendo agora; misturada ao orgulho, senti uma duradoura sensação de alegria.

Gichin Funakoshi’O-Sensei

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Natal (Nascimento e reflexão)!

A palavra japonesa “Dō ” acrescida às palavras “Karatê  空手”, no lugar de “jutsu ”, demonstra com clareza a intenção do seu fundador ao substitui-la com sabedoria!
Dotado de uma extrema espiritualidade, típica da cultura tradicional do Oriente, embora distinta do Ocidente, a sua doutrina requer acima de tudo a virtude da humildade, do respeito com a vida e de um sentimento de profunda gratidão pela natureza divina!
Tornemo-nos conscientes de tais desígnios e trabalhemos em nós o acolhimento e o avivamento espiritual no qual tanto o Oriente quanto o Ocidente contemplam em “silêncio” na busca pela Paz interior!

Feliz Natal, saúde e Paz!

Prof. Sylvio Rechenberg


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

“Razão”!

Quando pisares outra vez no teu Dōjo lembre-se, bem ali onde você está prestes a pisar, trava-se um combate entre o céu e a terra, entre o bem e o mal, entre a paz e a guerra que residem dentro de todos nós. Bem ali na tua frente está o “Caminho” no qual se encontra uma forma de agir, de pensar e de sentir e que somente vivenciando na prática sua doutrina, filosofia e ideologia, somente assim, a “Via” se revelará a você! Adiante está à razão de seguir em frente e que se manifesta a cada dia, a cada hora e a cada segundo da tua vida, só depende de ti! Cabe a ti distingui-la, encontra-la dentro de você mesmo(a)! Uma alternativa, uma escolha, um modo de vida que ninguém poderá vivenciar por ti, nem mesmo compreender, nem tão pouco imitar ou querer acompanhar. O teu propósito ali adiante, logo ao adentrar no teu Dōjo é confrontar-te, é colocar diante de ti unicamente o teu “eu” real e transformá-lo, construindo a tua própria fortaleza, rejeitar o conflito, dignificar as virtudes e cultivar para sempre estas sábias pegadas no "Caminho"!

Prof. Sylvio Rechenberg

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Escolhas!

“ Pode-se treinar por muito, muito tempo, se porém, apenas mexer as mãos e os pés e saltar para cima e para baixo como uma marionete, você nunca chegará à essência; você fracassará em captar a quintessência do Karatê-Dô! ”

Gichin Funakoshi'O-Sensei

sábado, 18 de novembro de 2017

Intangibilidade!

O Karatê-Dô de O-Sensei’Funakoshi se basta, sua prática é doutrinária, vitalícia e utilitária, se interioriza e se fixa à medida que se busca o seu verdadeiro poder, não o poder destrutivo do conflito, mas o poder transformador da paz. Eis aí o seu tesouro! Com o tempo, a maturidade em seu vivenciamento ilumina as pegadas de um caminhar constante, firme e diligente, condizente com a razão do seu ideal maior. Compreende-se que o desapego do ego revela a sabedoria tão necessária para a compreensão de sua doutrina! O mais importante na vida de um “karateka” não é trazer a “Arte” para junto do seu coração, mas alcançar o coração da própria “Arte” que o seu fundador um dia nos confiou!

Prof. Sylvio Rechenberg

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Clara evidência!

Se você quer apenas aprender a se defender além de querer aprender em pouco tempo algumas técnicas de luta e ter uma sensação de estar preparado (a) para uma eventual “briga de rua”, então não existe razão e nem o perfil para se matricular e frequentar uma academia tradicional de Karatê-Dô! Bem como também não há razão em aprender alguma forma de “Kata” ou qualquer uma das etiquetas, nomenclaturas, padrões de bases, posturas, das exaustivas e desgastantes repetições, da rigorosa disciplina, da cobrança de conduta, do envolvimento e do comprometimento pessoal e nem mesmo sobre a história que está intrínseca no estudo e na prática do Karatê-Dô japonês!

Aconselho você então a procurar um cursinho de defesa pessoal ou aulas do popular “vale-tudo”, ou alguma atividade semelhante à luta de rua.

Também não pense que só porque você pratica “karatê" que você automaticamente é um “karateka” tradicional, pois as tradições originais da Honorável Arte de O-Sensei’Funakoshi foram drasticamente alteradas, comprometidas com a inovação do esporte e muitas das quais foram simplesmente abandonadas. Outras, no entanto foram adaptadas para servirem a prática competitiva, algumas viraram meras formalidades casuais, lamentavelmente atendendo as exigências do “jogo” e se adequando as circunstâncias do modismo e de uma aceitação popular motivada pela disputa, tal prática transformou-se assim numa típica atividade esportiva, meramente lúdica, e enquadrada às regras do comitê olímpico internacional. Ledo engano!!

Por outro lado, ainda que raros, existem os que na sua profunda e autentica cumplicidade e ilibada responsabilidade mantem acesa a chama do Karatê-Dô verdadeiro, que incansáveis, lutam pela sua necessária e fundamental sobrevivência!

Prof. Sylvio Rechenberg


O-Sensei (Yoko Empi Uchi)

sábado, 28 de outubro de 2017

O “Caminho” da Honorável Arte de O-Sensei’Funakoshi!

Atenção: Para uma correta compreensão leia o texto completo com calma e reflita.

Todas as criaturas viventes têm suas características próprias, suas particularidades defensivas agregadas a um instinto de sobrevivência incorporado ao seu DNA. E considerando o homem como um membro comunitário e um ser integrante na sociedade, a "defesa pessoal" também é uma necessidade comum para todos. Ter a oportunidade básica fundamental de nos defendermos de situações onde a nossa vida é exposta a um perigo iminente ou mesmo a uma ameaça a nossa integridade é uma prioridade sempre atual!

A saber, às várias formas de conflitos, tanto os externos como os internos que por sinal estão cada vez mais em evidencia nos dias de hoje!

Porem o ser humano tem uma coisa que o destaca frente a todas as demais criaturas sobre a terra, a sua racionalidade, o seu livre arbítrio, a sua capacidade de decidir entre o certo e o errado, a sua capacidade de raciocinar mediante as adversidades que o afligem ao longo da sua vida, a se comportar corretamente em qualquer lugar.

Um dom divino exclusivo do ser humano, a nossa inteligência nos permite fazer uma leitura racional do que pode acontecer caso agíssemos desta ou daquela maneira em relação a determinadas circunstancias que por ventura viessem a acontecer. Assim sendo, certamente o leitor já faz uma relação com a maneira de agir e de se comportar mediante as adversidades do nosso dia a dia. E é exatamente isso que nos faz sermos diferentes, especiais e superiores as demais criaturas. Se não fosse assim seriamos como os animais, meramente irracionais e primitivamente entregues ao acaso e a toda sorte de problemas.

No entanto independentemente de como agimos, mesmo assim existem as situações nas quais somos envolvidos, mesmo adotando todas as precauções de segurança e as devidas providencias necessárias para evitar tais ocorrências, mesmo assim, somos pegos de surpresa e então vitimados às suas consequências e na maioria das vezes causadas por criaturas da nossa própria espécie.

Porem existe algo muito além do óbvio na dita "defesa pessoal popular” que estamos acostumados a trabalhar incansavelmente no Dôjo conforme a padronização da escola tradicional de origem, algo que precisa ser compreendido e, portanto considerado antes de tudo por todos nós que trilhamos o conceituado “Caminho”, o “Dô”, conforme a doutrina original a partir do seu fundador.

Tal compreensão nos permite lançar um olhar bem mais profundo na efetivação de todo o contexto que abrange a essência do “Caminho do Karatê de O-Sensei’Funakoshi”.

Então do que trata este “Caminho”?

Enquanto seres “irracionais” (os animais) matam pela fome, já os seres humanos podem ferir, mau tratar, zombar e se divertir as custas dos outros, prejudicarem a si mesmos por bel prazer e até capazes de matar para obter vantagem, não raro, podem agir com violência e se tornarem indiferentes à qualquer tipo de razão, cultivando a soberba no coração e se sentindo motivados por essa inconsequência. Envaidecidos, muitos se sentem realizados e atraídos pela “emoção destrutiva” e ficam felizes enquanto buscam a autossatisfação alimentada unicamente pelo seu próprio “ego” mundano, e se utilizam desta “primitiva fraqueza humana” para todo tipo de “agressão” em prol de seu próprio beneficio causando o maleficio alheio.

Uma clara manifestação do maior de todos os inimigos e que está dentro de cada um de nós, faz parte da nossa vida diária; e é disso que trata o “Dô”(Caminho); o “ego” dominante e controlador é um problema real e atual em evidencia, uma questão comportamental, uma tendência da modernidade, muito comum no Ocidente, mas que cresce no mundo inteiro, instigado pela mídia sensacionalista que se aproveita disso para alcançar os seus objetivos populistas, se isentando de qualquer responsabilidade das consequências de tais estímulos;  e o descaso obviamente do próprio sistema governamental em “todos os sentidos”.

Portanto se não trabalharmos com uma disciplina voltada principalmente na formação de um caráter virtuoso, de manter os bons costumes, a moralidade, a dignidade e em ter uma “espiritualidade” sempre presente em nossas decisões e ações, seremos facilmente dominados e vencidos pelo nosso próprio “ego” primitivo! Pois a nossa fragilidade a partir do “ego” dominador é a maior razão para a nossa infelicidade e assim afetando a nossa saúde, a nossa segurança e a dos que nos rodeiam, a nossa consciência espiritual e a visão distorcida de mundo que nos tentam incutir a todo custo todos os dias!

Vivemos a mercê de um sistema muito longe de ser o ideal e por isso mesmo o nosso “ego” viciado se fortalece com a inoperância das “leis”, principalmente no Ocidente, que por sua vez em sua maioria, são meras formalidades políticas e de interesses afins, oriundos de uma sociedade contaminada pelo “ter” e a total falta de “valores”; além de uma espiritualidade fragilizada e sobre tudo e fundamentalmente a falta do temor a Deus!

Devemos nos policiar continuamente deste distúrbio nocivo e causador de conflitos pessoais de todo tipo, reflexo de uma ante cultura e uma educação familiar equivocada, desregrada, permissiva, descontrolada e irresponsável onde a liberdade esta a mercê de um caos institucional e onde os “Deveres” ficam bem aquém dos direitos, gerando uma miscigenação de ações danosas para a sociedade, corrompendo a ordem pública e abrindo as portas para a violência urbana desacerbada.

Aprender a reconhecer esta fraqueza humana que carregamos conosco é fundamental para que possamos combater com todas as nossas “forças” este “conflito interior” extremamente operante em muitos momentos da nossa vida diária. É necessário que possamos ter uma profunda consciência de nós mesmos, e desenvolvermos a capacidade de superar-nos diante das tribulações e das provações do cotidiano.

Fatos que há milênios muitos sábios do Oriente já haviam advertido e por isso mesmo, motivados a criar e desenvolver extraordinários mecanismos de atuação prática e direta que agissem como norteadores e que possibilitassem uma conexão entre o corpo, a mente e o espírito em unidade para o bem comum, e assim obtendo consequentemente inúmeros benefícios construtivos e de utilização prática diária na vida de todas as pessoas.

Estes sábios visionários do antigo Oriente atentaram tanto nas formas de treinamento sistemático como nos métodos de formação severamente disciplinadores para que através destes mecanismos doutrinários de trabalho físico, mental e espiritual baseados na preservação e valorização da vida e sua consequente proteção, se possa construir uma sociedade mais pacífica, menos materialista e mais sensível as grandes e verdadeiras prioridades da humanidade enquanto vida evolutiva, considerando o “Ser” em conformidade com a natureza e em busca do equilíbrio, da harmonia e de uma paz duradoura.

Então, quando no Ocidente se fala em “Karatê-Dô” logo se compara esta pratica a uma simples forma de luta para aprender como se defender de um vagabundo qualquer ou mesmo onde um tenta ser melhor do que o outro apenas para provar quem é o vencedor, como acontece nos esportes de competição. Uma triste e lamentável realidade no mundo de hoje!

Isso não é e jamais foi o propósito derradeiro do fundador ao inspirar sua Honorável Arte! É o tipo da informação distorcida pela mídia, incorretamente interpretada, mas constantemente manipulada pelos interesses daqueles que lucram com este “tipo de negócio”, onde o que conta é a quantidade de pessoas atraídas pelo imediatismo barato e contagiante da disputa e a falsa ilusão de poder pela violência.

No início o que um “leigo desinformado” procura não é o que as "verdadeiras" artes Orientais querem transmitir, porem com o tempo, o que um estudante sério irá aprender durante esse processo de formação, crescimento, realização e transformação interior, caso persista e se mantenha firme no “Caminho” sem fraquejar, sem se contaminar, sem se corromper, este aprendizado jamais deixará de atuar, levará consigo para o resto de sua vida, não como adornos de tolas lembranças e conquistas do ”ego”, mas como uma ferramenta incomparável de benefícios que lhe será muito útil e onde o amor pela vida promoverá uma paz tão real, autentica e acalentadora em seu coração que nada nem ninguém poderão destruir, pois se tornou parte da sua “natureza pessoal”, e segue adiante com a dignidade que merece numa evolução construtiva do ser humano como criatura “Divinal” e assim com um espírito indestrutível, eternamente inspirador e pacifico!  Este é o Karatê-Dô de O-Sensei!!

Prof. Sylvio Rechenberg