Trinta raios convergem para o meio de uma roda
Mas é o "espaço vazio" em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o "vazio" dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;
É o "vazio" que os torna útil.
Por isso, a vantagem do que está lá
Assenta exclusivamente na utilidade do que lá não está.
Tao Te Ching (道德經), Cap. 11
domingo, 28 de janeiro de 2018
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
O "Caminho" - Dō 道 (japonês) / Tao 道 (chines)
Para os estudantes sérios de
artes marciais clássicas este seriado é um tesouro que vale a pena rever e
atentar com bastante reflexão.
Kung Fu foi um seriado de
televisão estrelado por David Carradine na década de 70.
Em cada um dos 63 episódios da série
tem várias passagens onde o monge “Kwai Chang Caine” recebe orientações e os
ensinamentos no lendário templo Shaolin, famoso mosteiro budista localizado na
província de Henan, na China.
Como muitos já sabem, nele viveu,
no século VI, o 28º patriarca budista Bodhidharma, onde criou o estilo Chan
(Zen) do Budismo, bem como o desenvolvimento do Wushu de Shaolin.
Historicamente fundamentado a
ideologia e a filosofia do Karatê-Dō de O-Sensei'Funakoshi preservam
profundamente enraizados estes princípios milenares de sabedoria e
vivenciamento de sua arte ancestral. Seguem abaixo algumas das passagens do filme piloto da série.
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
Natureza espiritual!
Do livro, "Karatê-Dō o meu modo de vida" (pag.67)
...Minha cidade nativa de Shuri é
rodeada por colinas com florestas de pinheiros Ryukyu e vegetação subtropical;
entre elas, está o Monte Torao, que pertencia ao barão Chosuke Ie (que, na
verdade, veio a ser um dos meus primeiros patronos em Tóquio). A palavra Torao
significa “cauda do tigre” e era particularmente adequada porque a montanha era
estreita e tão densamente arborizada que realmente tinha a aparência de uma
cauda de tigre quando vista de longe. Quando dispunha de tempo, costumava
caminhar pelo Monte Torao, às vezes à noite quando a lua era cheia ou quando o
céu estava tão claro que se podia ficar sob uma cobertura de estrelas. Nessas
ocasiões, se por acaso também houvesse um pouco de vento, podia-se ouvir o
farfalhar dos pinheiros e sentir o profundo e impenetrável mistério que está na
raiz de toda a vida. Para mim, o sussurro era uma espécie de música celestial. Poetas
de todo o mundo cantaram suas canções sobre o mistério da meditação que permeia
os bosques e florestas, e eu era atraído pela solidão fascinante de que são símbolo.
Talvez meu amor pela natureza fosse intensificado pelo fato de eu ser filho
único e criança frágil, mas seria exagero de minha parte considerar-me um
“solitário”. Apesar disso, depois de uma prática intensa de Karatê, não tinha
coisa melhor do que sair e perambular sozinho. Então, quando estava na faixa
dos meus vinte anos e trabalhava como professor em Naha, seguidamente me
deslocava a uma ilha comprida e estreita na baía, que ostentava um parque
natural esplêndido chamado Okunoyama, com pinheiros soberbos e um lago enorme
de lótus. A única construção na ilha era um templo Zen. Aqui também eu costumava
vir com frequência para caminhar sozinho entre as árvores. Por aquela época eu
já praticava Karatê há alguns anos, e “à
medida que aprofundava meu
conhecimento da arte tornava-me mais consciente de sua natureza espiritual!” Usufruir
minha solidão enquanto ouvia o vento assobiando por entre os pinheiros era, me
parecia, um modo excelente de alcançar a serenidade da mente que o Karatê
exige.
Gichin
Funakoshi’O-Sensei
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
Do livro, "Karatê-Dō o meu Modo de Vida" (pag.42)
A Vitória através da Derrota.
...A estrada solitária para
Mawashi serpeava por alamedas de pinheiros grossos, e no início da noite já
estava bastante escuro; assim, fui pego de surpresa quando dois homens saltaram
inesperadamente do abrigo das árvores para o meio da estrada para impedir minha
passagem. Como os outros presumidos atacantes, eles haviam coberto o rosto com toalhas.
Ficou imediatamente evidente que não estavam apenas inclinados a provocar uma
luta bem-intencionada. “Bem”, gritou
um deles insolentemente, “não fique aí
parado como se fosse surdo e mudo. Você sabe o que queremos. Fale! Diga ‘Boa
tarde, senhor’, e diga-nos como o dia está bonito! Não nos faça perder tempo,
coisa miúda, ou vai se arrepender. Dou a minha palavra!” Quanto mais eles
ficavam irritados, mais calmo eu me sentia. Pelo modo como o que falara comigo
fechou os punhos eu podia dizer que não era um praticante de Karatê; e o outro,
que segurava um bordão reforçado, também era um amador. “Vocês não estão me confundindo com outra pessoa?”, perguntei
calmamente. “Com certeza, deve haver um mal-entendido.
Acho que se a gente conversasse sobre isso... “Ah, cala a boca, nanico!”,
rosnou o homem com o bordão. “Por quem
você nos toma? ”Dizendo isso, os dois se aproximaram um pouco mais de mim,
mas não me senti intimidado nem um pouco. E disse, “ Parece que vou ter de brigar com vocês, mas aviso francamente e
aconselho para não insistirem. Acho que não vai ser nada bom porque...” Nesse
momento, o segundo homem levantou o bordão, “porque”,
continuei rapidamente, “se eu não tivesse
certeza de vencer, não lutaria. Sei que vou perder. Então, por que lutar? Isso
não faz sentido!” A essas palavras, os dois pareceram acalmar-se um pouco. “Bem”, disse um deles, “você certamente não poderia oferecer muita
resistência a uma luta. Vamos ver seu dinheiro então!” “Não tenho nenhum
dinheiro”, respondi, mostrando-lhes meus bolsos vazios. “Fumo, então!” “Não fumo.” Tudo o que
tinha era um pouco de inanju, bolos que estava levando para oferecer no altar
na casa do pai de minha mulher. Disse, então, “Vejam, tomem isso. “Só manju!” O tom era de desdém. “Bem, melhor do que nada.” Pegando os
bolos, um dos homens disse, “Melhor ir
andando, nanico. E tenha cuidado, o caminho é um tanto perigoso.” Com isso,
desapareceram entre as árvores. Alguns dias mais tarde aconteceu de me
encontrar com Azato e Itosu juntos, e no curso de nossa conversa contei-lhes o
incidente. O primeiro a me elogiar foi Itosu, que disse que eu havia me
comportado com a maior propriedade e que agora considerava que as horas que
tinha utilizado ensinando-me Karatê tinham sido as mais proveitosas que
passara. “Mas”, perguntou Azato,
sorrindo, “como você não tinha mais o
manju, o que ofereceu no altar de seu sogro?” Respondi: “Já que não tinha mais nada, ofereci uma
oração profunda e sincera.” “Ah, bom, bom!”, completou Azato. “Você fez bem, realmente, esse é o
verdadeiro espírito do Karatê! Agora você está começando a compreender o que
ele significa.” Tentei abafar meu orgulho. Embora os dois mestres nunca
tivessem elogiado um Kata sequer durante as sessões de prática, estavam me enaltecendo
agora; misturada ao orgulho, senti uma duradoura sensação de alegria.
Gichin Funakoshi’O-Sensei
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
Natal (Nascimento e reflexão)!
A palavra japonesa “Dō 道”
acrescida às palavras “Karatê 空手”,
no lugar de “jutsu 術”, demonstra com clareza a intenção do seu
fundador ao substitui-la com sabedoria!
Dotado de uma extrema espiritualidade,
típica da cultura tradicional do Oriente, embora distinta do Ocidente, a sua
doutrina requer acima de tudo a virtude da humildade, do respeito com a vida e
de um sentimento de profunda gratidão pela natureza divina!
Tornemo-nos conscientes de tais
desígnios e trabalhemos em nós o acolhimento e o avivamento espiritual no qual
tanto o Oriente quanto o Ocidente contemplam em “silêncio” na busca pela Paz
interior!
Feliz Natal, saúde e Paz!
Prof. Sylvio Rechenberg
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
“Razão”!
Quando pisares outra vez no teu Dōjo
lembre-se, bem ali onde você está prestes a pisar, trava-se um combate entre o
céu e a terra, entre o bem e o mal, entre a paz e a guerra que residem dentro de
todos nós. Bem ali na tua frente está o “Caminho” no qual se encontra uma forma
de agir, de pensar e de sentir e que somente vivenciando na prática sua
doutrina, filosofia e ideologia, somente assim, a “Via” se revelará a você! Adiante
está à razão de seguir em frente e que se manifesta a cada dia, a cada hora e a
cada segundo da tua vida, só depende de ti! Cabe a ti distingui-la, encontra-la
dentro de você mesmo(a)! Uma alternativa, uma escolha, um modo de vida que ninguém
poderá vivenciar por ti, nem mesmo compreender, nem tão pouco imitar ou querer
acompanhar. O teu propósito ali adiante, logo ao adentrar no teu Dōjo é
confrontar-te, é colocar diante de ti unicamente o teu “eu” real e
transformá-lo, construindo a tua própria fortaleza, rejeitar o conflito, dignificar
as virtudes e cultivar para sempre estas sábias pegadas no "Caminho"!
Prof. Sylvio Rechenberg

