segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Bibliografia:

1958, Funakoshi, Gichin: "Karate-do Kyohan", Ward Lock
1979, Tokitsu, Kenji: "Histoire du Karaté-do", Éditions SEM
1979, Rau, Heimo: "Gandhi", Círculo de Leitores
1993, Hassel, Randal: G., "Shotokan Karate, It’s History & Evolution", Focus
1997, Layton, Clive: "Karate Master – The Life and Times of Mitsusuke Harada", Bushido Publications

" Budo " Uma arte para a vida!

" Segundo Gichin Funakoshi O-Sensei, situando-se o combate de Karatê entre a vida e a morte, não podemos treinar seriamente senão através das formas de combate convencionais, através das quais cada um se esforça por ultrapassar os seus limites." Admitindo que a vida é luta, duas perspectivas se pode colocar: Podemos pensar nela como uma luta pelo pódio onde é preciso subir, custe o que custar, vencendo para isso os nossos semelhantes, vistos como competidores. Ou podemos vê-la como uma luta pela Vida que se pode percorrer em harmonia e respeito pelos outros, parando o conflito ( budo) e sabendo usar a nossa força e a do nosso semelhante com benefícios mútuos. (C) Copyright: José Patrão, 2000 - 2003

Nihon Karate-do Shotokai

- a Shotokai foi criada em 1935 pelos alunos mais antigos e prestigiados de Funakoshi O-Sensei para a construção do Dojo Shotokan; - em 1956, após a publicação das regras de competição pela NKK, Gichin Funakoshi e esses mesmos alunos formalizam, notarialmente, a Nihon Karate-do Shotokai, com vista à defesa dos valores essenciais do Karatê-dô (Karatê como Budo); - quando do funeral de Gichin Funakoshi O-Sensei, a família Funakoshi atribuiu à Nihon Karatê-dô Shotokai a responsabilidade da organização das cerimónias fúnebres; - no ano de 1998 em Tóquio, foram celebrados os cerimonias do 130º aniversário do nascimento de Gichin Funakoshi O-Sensei, os quais coincidiram com as cerimonias do 60º aniversário do Dojo Shotokan; essas cerimónias foram, obviamente, organizadas pela Nihon Karate-do Shotokai; - a Nihon Karate-do Shotokai é a proprietária do Dojo Shotokan, posteriormente reconstruído em Shibaura, Tóquio; - a utilização do nome "Shotokan" só pode ser oficialmente concedida pela Nihon Karate-do Shotokai (embora a prática demonstre que, pelo mundo a fora, esse nome passou a ser usado indiscriminadamente por uma série de associações e federações, nacionais e internacionais); A natureza da Nihon Karate-do Shotokai não é um estilo de Karatê, um "ryu", como o Wado-ryu ou o Shito-ryu. É, isso sim, uma organização que defende o Karatê-dô como um todo, unificadamente, como um caminho de vida, tal como o fundador dessa organização sempre defendeu. Essa organização pretende que o Karatê seja visto, unificadamente, como qualquer uma das restantes artes do Budo. Nesse sentido, a forma de prática mais antiga, com ataques e defesas mais "curtas" e posições mais "altas", incidindo mais na prática dos Kata, na tradição mais direta do Okinawa-te, é ainda praticada hoje por alguns membros da Nihon Karate-do Shotokai. A forma mais "ampla" e uma maior variedade de pontapés e tipos de Kumite é praticada hoje também por muitos membros. E a forma "fluida" e "baixa" com um componente elevado de "nage" e "ukemi" (projecções e quedas) é também praticada no seio da Nihon Karate-do Shotokai. Existem atualmente vários estilos e múltiplas escolas de Iaido e Kyudo. Todas elas são encaradas como Budo. E existe também a esgrima e o tiro ao arco de competição e essas atividades não são consideradas Budo. - A forma de prática do Karatê Shotokan dito "tradicional", seja qual for o recuo no tempo a que essa palavra se refere, é uma forma de prática bem acolhida no seio da Nihon Karate-do Shotokai, desde que compreenda uma prática séria de Karatê-dô, visto como uma das formas de Budo. - As restantes formas de prática (ditas "tradicionais" ou não) que defendam uma forma de prática com ênfase na competição desportiva e nos aspectos comerciais do Karatê são claramente recusadas no seio da Nihon Karatê-dô Shotokai. (C) Copyright: José Patrão, 2000 - 2003

" Karatê-Dô Kyohan " - ( The Master Text ).

...Na introdução à segunda edição do seu mais famoso livro “Karatê-Dô Kyohan”, em 13 de Outubro de 1956, Funakoshi Gichin O-Sensei escreveu: (...) Em resultado da desordem social que surgiu no final da Segunda Guerra Mundial, o mundo do Karatê dispersou-se, tal como muitas outras coisas. Aparte o declínio do nível técnico desses tempos, não posso negar que houve momentos em que tomei dolorosamente consciência do quase irreconhecível estado de espírito a que se chegou, face aquele que existia nos tempos em que eu introduzi pela primeira vez e comecei a ensinar Karatê. Embora se possa argumentar que tais mudanças não são mais que o resultado natural da expansão do Karatê-dô, não é óbvio que se possa contemplar tal resultado com regozijo em vez de apreensão. É, pois, com um sentimento misto de alegria e remorso que eu tenho observado e tentado providenciar uma melhor direção para o curso do mundo do Karatê, e sinto dificuldade em calcular qual será a influência que eu ainda possa ter perante tamanha força de corrente. (...)”

...Numa entrevista dada em 1982, após a saída de Saigo Kichinosuke Sensei da (JKA)(NKK), Nakayama Masatoshi Sensei que assumiu a presidência daquela organização até sua morte, afirmou: "(...) Sabe, antes da morte de mestre Funakoshi eu comecei a investigar no sentido de desenvolver torneios, ou Karatê desportivo. Mas quando eu pedi conselho a Funakoshi Sensei ele recusou-se a comentar. Ele estava preocupado, sabe, que os torneios se tornassem demasiado populares e que, então, os estudantes começassem a afastar-se dos princípios básicos e que praticassem unicamente competição. (...)” C) Copyright: José Patrão, 2000 - 2003

domingo, 30 de novembro de 2008

Nihon Karate Kyokai (NKK) e a Nihon Karate-Do Shotokai

A distinção entre os termos Shotokai e Shotokan aconteceu após a morte de Funakoshi O-Sensei.
No dia 10 de Março de 1945, ocorreu o mais intenso bombardeamento de Tóquio pelas tropas aliadas. O Shotokan e a residência de Funakoshi O-Sensei foram completamente destruídos. Poucos meses depois, em 24 de Novembro de 1945 realizava-se o funeral de Yoshitaka Funakoshi Sensei: com apenas 39 anos de idade, que acabaria por sucumbir não só à doença respiratória que há muitos anos o perseguia mas, também, à tremenda dor que a destruição da obra de seu pai lhe provocara.
Desde 1934 que Yoshitaka Funakoshi Sensei vinha desenvolvendo, um trabalho verdadeiramente excepcional no domínio do desenvolvimento da arte que o seu pai lhe ensinara. O jovem Gigo (Yoshitaka Funakoshi) consciente de que a tuberculose não lhe permitiria uma vida longa, empenhara-se de alma e coração no desenvolvimento da arte que aprendera de seu pai:
No Kihon (fundamentos ou técnica de base) não só transformou todas as posições originais, baixando o centro de gravidade e aumentando a fluidez e a amplitude, como introduziu novas posições de base, dentre as posições introduzidas destaca-se o Fudo-dachi, considerada mais adequada para o combate, adoptando ainda pontapés desconhecidos (ou esquecidos) do Okinawa-te, nomeadamente os seguintes, hoje clássicos: Yoko-geri, Mawashi-geri e Ushiro-geri.
Nos Kata’s (formas de base) efetuou, encorajado por seu pai, visitas a vários Mestres de Okinawa recolhendo variantes de Katas conhecidos é o caso das variantes “curtas” (sho) dos katas Bassai e Kanku.
Finalmente, na área do Kumite (combate) introduziu métodos novos de combate, que logo captaram o entusiasmo dos praticantes mais jovens, com destaque para o jiyu-ippon kumite e o jiyu-kumite Estas formas, introduzidas respectivamente em 1934 e 1935, podem ser traduzidas como “combate semi-livre” e “combate livre”.
Mais ou menos espontaneamente surgiram os chamados “kokangeiko” que remonta a 1936. Em novembro desse ano foi criada uma organização cujo nome pode ser traduzido como “União Japonesa de Karate Universitário” que se destinava a organizar tais “encontros”, treinos de intercâmbio universitário que começavam como sessões de jiyu-kumite nos ginásios de karate das universidades e que, muito frequentemente acabavam no hospital local.
O-Sensei e os seus mais diretos seguidores – designados pelos estudantes por “old-boys” e conotados com o grupo Shotokai – criticavam e desencorajavam liminarmente estas manifestações, dado que os acidentes que provocavam, nisso todos estavam de acordo, em nada contribuíam para dignificar a imagem pública do Karatê-do.
Tal estado de coisas levou O-Sensei Funakoshi a proibir, a partir de 1940, a prática de jiyu-kumite por verificar que, em parte devido ao fervor nacionalista e também pelo desejo de competição, essa prática induzia a um espírito de violência contrário à essência do Budo.
Todavia, os anos do pós-guerra vieram reacender no coração dos jovens universitários o espírito dos kokangeiko. A coragem demonstrada em toda a sua curta vida por waka-sensei(Yoshitaka Funakoshi) e a sua dramática morte, os mestres mais próximos de Funakoshi Yoshitaka relatam que faleceu por gangrena pulmonar, num horrível sofrimento devido às precárias condições hospitalares que se viviam nos hospitais de Tóquio nos meses que sucederam ao final da Guerra. Tinham-no tornado um modelo carismático que preenchia o “vazio de alma” de uma hoste de jovens japoneses que, no final dos seus cursos procuravam desesperadamente uma saída do desemprego e da falta de alternativas do pós-guerra.
Por outro lado, as forças de ocupação americanas começavam a aperceber-se das vantagens pacificadoras de uma simbiose com os seus ex-inimigos e começaram a organizar demonstrações e cursos de Karate-do, Judo e Aikido para a força-aérea americana. Nas demonstrações organizadas pela força aérea americana nos EUA destacam-se os nomes de Nakayama Masatoshi Sensei, Nishiyama Hidetaka Sensei, Kamata Toshio Sensei, Obata Isao Sensei, Oshima Tsutomu Sensei e o próprio Funakoshi Gichin O-Sensei. Destacam-se ainda como representantes de outras artes marciais nestas demonstrações Tomiki Kenji Sensei, do Aikido, e Kotani Sumiyaki Sensei do Judo. Dessa cooperação, que teve o seu apogeu entre 1948 e 1953, nasceria não só um genuíno interesse nas artes marciais japonesas por parte dos militares americanos, mas também uma grande curiosidade e admiração pelas metodologias pedagógicas e teorias de treino desportivo ocidentais por parte de alguns karatecas japoneses.
Nakayama Masatoshi Sensei começou a treinar com Funakoshi O-Sensei em 1932, interrompendo a sua prática de 1937 a 1946 para uma estadia na China durante a qual estudou várias artes marciais chinesas. Foi um dos karatecas que melhor corporizou o espírito da época. Descendente de uma família de samurais, formara-se pela universidade de Takushoku, onde aprendera modernas técnicas de negócios e gestão comercial e completara os seus estudos na China.
Quando Funakoshi O-Sensei e os homens da Shotokai decidiram fundar em maio de 1949 a “Nihon Karate Kyokai”(NKK), mundialmente conhecida pela tradução inglesa “Japan Karate Association”, chamando uma vez mais o prestigiado Saigo Kichinosuke para a presidência da organização, numa derradeira tentativa para reunir o Karatê sob a égide de uma única entidade, Nakayama Sensei foi um dos homens escolhidos para a organização operacional da Associação, juntamente com Kimio Itoh Sensei e Nishiyama Hidetaka Sensei.
As perspectivas próprias de desenvolvimento do Karatê por parte destes lideres levaram-nos a investigar a possibilidade de abrir a prática do Karatê ao grande público, como um produto de grande consumo.
Em 1955 a NKK decidiu abrir o primeiro dojo com uma perspectiva claramente “comercial”, até então os discípulos de O-Sensei sempre tinham ensinado numa perspectiva não-lucrativa, numa sala do edifício do Centro de Cinema de Kataoka, em Tóquio.
Em Agosto de 1956 completara um conjunto de regras de competição destinadas a permitir a competição desportiva de Karatê, sem por em causa a integridade física dos competidores.
À medida que os Dojo’s afetos à organização se expandiam junto do grande público, o nome oficial da NKK ficava associado aos homens do Shotokan.
As personalidades que originalmente tinham criado o comitê fundador do Dojo Shotokan e que foram também os fundadores da NKK, cedo deixaram de se rever nessa organização e começaram a tecer profundas críticas internas, acerca do seu funcionamento e filosofia que consideravam contrários aos do verdadeiro Budo.
Muitos deles decidiram desde logo abandonar a NKK. Assim, num primeiro momento em 1950, por iniciativa de Isao Obata, é fundada a “Liga Japonesa de Karate Universitário” que recusa a perspectiva desportiva e comercial do Karatê.
Posteriormente, em 1956, tendo como presidente o próprio Funakoshi'O-Sensei formaliza-se a organização que espiritualmente existia desde há 30 anos, a “Nihon Karate-do Shotokai”.
A 26 de Abril de 1957 morre Funakoshi Gichin'O-Sensei.
A família decide que a organização do funeral ficará a cargo da Nihon Karate-do Shotokai. A Nihon Karate Kyokai, por seu lado, uma vez que não lhe foi atribuída a organização do funeral do mestre recusa-se a participar nas cerimónias fúnebres.


(C) Copyright: José Patrão, 2000 - 2003

Shotokan e Shotokai

Shoto era o pseudónimo que Funakoshi Gichin O-Sensei usava para assinar os seus poemas. Amante das coisas simples e naturais, maravilhava-se, na sua juventude, com o ondular dos pinheiros batidos pelo vento marítimo nas vertentes dos montes onde se erguia o castelo de Shuri. Foi essa imagem da sua ilha natal de Okinawa que lhe inspirou o pseudónimo Shoto, o qual pode ser traduzido literalmente como "o pinheiro e o mar” e mais poeticamente como o "ondular dos pinheiros". Em 1935 os alunos mais antigos de Funakoshi O-Sensei criaram uma fundação em honra do seu mestre a qual tinha como primeiro objectivo reunir fundos para a construção de um dojo. Em 1938 no dia em que, pela primeira vez depois das obras de construção estarem completamente prontas, o mestre franqueou o portão de entrada, virou-se para a direita para contemplar o belíssimo Dojo e deparou-se com uma inscrição escrita em caracteres brancos numa placa colocada sobre o alpendre de entrada - Shotokan. Essa expressão pode ser traduzida de uma forma simples por “Casa Shoto”, mas é provável que o sentir dos alunos na altura exigisse uma tradução mais formal – “o Paço de Shoto”. Na sua localização original, o Shotokan situava-se no bairro de Toshima, em Tóquio, um pouco a Norte da célebre Universidade de Waseda. Tendo sido o primeiro Dojo a ser erigido para a prática do Karatê no Japão e pertencendo ao homem que 16 anos antes, em 1922, introduzira a sua prática na ilha central do Japão, compreende-se que se tenha tornado praticamente um local de culto para todos os karatecas dessa época e das gerações seguintes. Progressivamente, e por méra associação de idéias, os mestres primeiro, depois os alunos, passaram a ser conhecidos como os homens do Shotokan e o comitê originalmente criado em 1935 para a recolha de fundos para a construção do dojo, que geriu depois a construção da obra, iniciada em 1936 e que, em Julho de 1939, promoveu a sua inauguração formal perante as mais altas selebridades da época, passou a ser conhecido por Shotokai – expressão que pode ser traduzida simplesmente por “Associação (de amigos) de Shoto” ou, de modo mais formal, por “Fundação Funakoshi”. Esta associação era composta pelos alunos mais antigos de Funakoshi O-Sensei – com destaque para o seu terceiro filho Funakoshi Yoshitaka, Saigo Kichinosuke, Obata Isao, Egami Shigeru e Hironishi Genshin. (C) Copyright: José Patrão, 2000 - 2003