Shoto era o pseudônimo que Funakoshi Gichin'O-Sensei usava para assinar os seus poemas. Amante das coisas simples e naturais, maravilhava-se, na sua juventude, com o ondular dos pinheiros batidos pelo vento marítimo nas vertentes dos montes onde se erguia o castelo de Shuri. Foi essa imagem da sua ilha natal de Okinawa que lhe inspirou o pseudônimo Shoto, o qual pode ser traduzido literalmente como "o pinheiro e o mar” e mais poeticamente como o "ondular dos pinheiros". Em 1935, os alunos mais antigos de Funakoshi'O-Sensei criaram uma fundação em honra do seu mestre, a qual tinha como primeiro objetivo reunir fundos para a construção de um Dojo. Em 1938, no dia em que, pela primeira vez depois das obras de construção estarem completamente prontas, o mestre franqueou o portão de entrada, virou-se para a direita para contemplar o belíssimo Dojo e deparou-se com uma inscrição escrita em caracteres brancos numa placa colocada sobre o alpendre de entrada - Shotokan. Essa expressão pode ser traduzida de uma forma simples por “Casa Shoto”, mas é provável que o sentir dos alunos na altura exigisse uma tradução mais formal – “o Paço de Shoto”. Na sua localização original, o Shotokan situava-se no bairro de Toshima, em Tóquio, um pouco ao norte da célebre Universidade de Waseda. Tendo sido o primeiro Dojo a ser erguido para a prática do Karatê-Dō no Japão e pertencendo ao homem que, 16 anos antes, em 1922, introduzira a sua prática na ilha central do Japão, compreende-se que se tenha tornado praticamente um local de culto para todos os karatekas dessa época e das gerações seguintes. Progressivamente, e por mera associação de ideias, os mestres primeiro, depois os alunos, passaram a ser conhecidos como os homens do Shotokan e o comitê originalmente criado em 1935 para a recolha de fundos para a construção do Dojo, que geriu depois a construção da obra, iniciada em 1936 e que, em julho de 1939, promoveu a sua inauguração formal perante as mais altas celebridades da época, passou a ser conhecido por Shotokai – expressão que pode ser traduzida simplesmente por “Associação (de amigos) de Shoto” ou, de modo mais formal, por “Fundação Funakoshi”. Esta associação era composta pelos alunos mais antigos de Funakoshi'O-Sensei – com destaque para o seu terceiro filho Funakoshi Yoshitaka, Saigo Kichinosuke, Obata Isao, Egami Shigeru e Hironishi Genshin. (C) Copyright: José Patrão, 2000 - 2003
A escola Shotokan de O-Sensei em 1936 ano da inauguração.sábado, 26 de abril de 2025
domingo, 20 de abril de 2025
É Páscoa em 2025
Que a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, o nosso Salvador, filho de Deus, o Criador de todas as coisas, possa renovar em todos nós a fé e a esperança na vida eterna!
Feliz Páscoa!
sexta-feira, 18 de abril de 2025
Quando "lutar" vale a pena!
Todo caminho que leva ao conflito cada vez mais se distancia da Paz e todo "caminho" que leva a "Paz" cada vez mais se distancia do "conflito". No Karatê-Dō aprende-se a lutar para "não lutar"!
Prof.Sylvio Rechenberg
terça-feira, 8 de abril de 2025
Carregamos conosco!
Todos os dias, podemos, se quisermos realmente, encontrar minutos "vazios", aqueles momentos em que não temos nada o que fazer. Esses minutos estão por aí ao nosso redor durante as várias horas do dia, é só aprender a observar a si mesmo e aproveitá-los.
Durante anos no Karatê-Dō, entre outras tantas coisas, estudamos, aprendemos e praticamos Kata.
Kata, quando atentamos, passa a ser o "norte", onde tudo o que praticamos tem relação com ele, é uma cartilha, por onde nos orientamos para que qualquer coisa que praticamos seja feita como um Kata, da forma correta, de acordo com esse código confiado a nós pelas antigas gerações que os cultivaram com sabedoria milenar.
O Kihon, que aprendemos antes mesmo de aprendermos algum Kata, já é por si só parte de um Kata, portanto é onde aprimoramos todos os aspectos que o compõem e que definem e amadurecem a intenção por trás de cada ação.
Então, quando estivermos naquele minuto do dia, em que temos a oportunidade de praticar, que o façamos, dando-lhe vida, vida ao movimento, ao Kata que carregamos para lá e para cá, onde quer que estejamos, independente de como nos encontramos. O Kata que estudamos, aprendemos e praticamos é para o nosso único e próprio benefício!
Prof. Sylvio Rechenberg
sexta-feira, 28 de março de 2025
O Kata “papagaio”!
Repetir uma frase sem, contudo, compreender e não vivenciar nem dentro e nem fora do Dōjo o que se está dizendo ao repeti-la, ou seja, repetir por conveniência, ou por hábito, ou porque faz parte da etiqueta, ou por mera formalidade, de nada vai adiantar, de nada vai acrescentar, não tem valor algum, é a mesma coisa que ensinar um papagaio a “falar”!
Então, mesmo que se pronuncie o (Dōjo-Kun) antes e depois
das aulas, ou que se leia o livro dos 20 Princípios fundamentais do Karatê-Dō de
O-Sensei, o (Niju-Kun), isso tudo não vai adiantar de nada para formar uma
compreenção correta da Honorável Arte e muito menos irá servir como modelo na
formação do caráter de um praticante, se ele continuar a agir como um leigo, como
uma pessoa comum, como alguém que não tem nada a ver com o Karatê-Dō, alguém
que só participa mas não se envolve, não assume a responsabilidade como
karateka, mas que "se julga ser"!
terça-feira, 18 de março de 2025
Do livro de O-Sensei’Funakoshi, (Karatê-Dō - Meu modo de vida). Parte II
Um relato de Genshin Hironishi’Sensei, (Presidente do Karatê-Dō Shoto-kai do Japão).
...Existem muitas histórias sobre este homem extraordinário, grande parte delas contada por ele mesmo nas páginas seguintes. Algumas talvez, a esta altura, pertençam já ao reino da lenda, enquanto outras não receberam a atenção de Funakoshi’O-Sensei por serem parte tão intima de seu modo de vida que sequer estava consciente delas. Ele jamais se desviou de seu modo de vida, “o modo do samurai”. Ao jovem japonês do mundo pós-guerra, quase tanto quanto ao leitor estrangeiro, Funakoshi’O-Sensei talvez pareça um tanto extravagante, mas ele estava apenas seguindo o código moral e ético de seus ancestrais, um código que existia muito antes que houvesse algo como uma história escrita em Okinawa. Ele conservava os tabus ancestrais.
Por exemplo, a cozinha era um território proibido para um homem de sua classe, e Funakoshi’O-Sensei, tanto quanto é do meu conhecimento, jamais entrou nela. E também nunca se dispôs a pronunciar os nomes de objetos tão mundanos como meias ou papel higiênico, visto que — mais uma vez segundo o código que seguia rigorosamente — essas palavras estavam associadas como que era considerado impróprio ou indecente.
Para nós que estudamos sob sua orientação, Funakoshi’O-Sensei era um mestre notável e muito reverenciado, mas temo que aos olhos de seu jovem neto Ichiró (agora coronel da Força Aérea de Auto-defesa) ele fosse apenas um velho teimoso. Lembro-me muito bem de uma ocasião em que Funakoshi’O-Sensei deparou com um par de meias jogado no chão. Gesticulando para Ichirõ, disse, “Guarde aquelas coisas!” “Não compreendo”, disse Ichitõ com um ar de absoluta inocência. “O que quer dizer com ‘aquelas coisas’?” “Sim”, disse Funakoshi’O-Sensei, “aquelas coisas, aquelas coisas!” “Aquelas coisas, aquelas coisas!”, arremedou Ichirõ. “Você não conhece a palavra para ‘aquelas coisas’?” “Eu disse para guardar aquelas coisas imediatamente! repetiu Funakoshi’O-Sensei, e Ichirõ foi obrigado a dar-se por vencido. Sua armadilha falhara; como o fizera durante toda a sua vida, seu avô ainda se recusava inflexivelmente a pronunciar a palavra “meias”.
No decorrer do livro, Funakoshi'O-Sensei descreve alguns de seus hábitos diários. Por exemplo, a primeira coisa que fazia ao se levantar pela manhã era escovar e pentear o cabelo, um processo que às vezes ocupava uma hora inteira. Ele costumava dizer que um samurai deve estar sempre limpo. Depois de tornar-se apresentável, voltava-se na direção do Palácio Imperial e inclinava-se profundamente; em seguida, voltava-se na direção de Okinawa e fazia inclinação semelhante. Só depois de concluir esses ritos todos é que tomava seu chá matinal.
...O-Sensei’Funakoshi
foi um exemplo magnífico de um homem de sua categoria nascido no começo do
período Meiji, e atualmente restam poucos homens no Japão dos quais se pode
dizer que observam um código semelhante. Sou muito agradecido por ter sido um
de seus discípulos e apenas posso lamentar que ele não se encontre mais entre
nós.
Genshin
Hironishi’Sensei (Foi Presidente do Karatê-Dō
Shōtō-kai do Japão e de total confiança de O-Sensei'Funakoshi)
sábado, 8 de março de 2025
Do livro de O-Sensei’Funakoshi, (Karatê-Dō - Meu modo de vida). Parte I
Um relato de Genshin Hironishi’Sensei, (Presidente do Karatê-Dō Shoto-kai do Japão)
“...A origem do Karatê-Dō permanece impenetravelmente oculta pelas névoas da lenda, mas pelo menos conhecemos este fato: ele se enraizou e é amplamente praticado em toda a Ásia, entre povos que professam credos tão distintos como o budismo, o islamismo, o hinduísmo, o bramanismo e o taoísmo.
No transcurso da história humana, artes de autodefesa específicas atraíram seus próprios seguidores em várias regiões da Ásia, mas existe uma semelhança subjacente básica entre todas elas. Por esta razão, de um modo ou de outro, o Karatê-Dō se relaciona com as outras artes de autodefesa orientais, embora (penso poder afirmar) seja ele, atualmente, a mais praticada de todas.
O
inter-relacionamento se evidencia de imediato quando comparamos o motivo por trás
da filosofia moderna com o da filosofia tradicional. A primeira tem suas raízes
lançadas na matemática; a última, no movimento físico e na técnica. Os
conceitos e ideias, as línguas e os modos de pensar orientais foram modelados,
até certo ponto, por sua conexão intima com as habilidades físicas. Mesmo
naquelas situações em que as palavras, e as ideias, passaram por mudanças de
sentido inevitáveis no decorrer da história humana, descobrimos que suas raízes
permanecem solidamente encravadas em técnicas físicas.
Há um ditado budista que, como muitas outras máximas do budismo, é manifestamente autocontraditório, mas, para o karateka, confere um significado especial à sua prática técnica. Traduzido, o ditado reza, ‘Movimento é não-movimento, não-movimento é movimento. Esta é uma tese que, mesmo no Japão contemporâneo, é aceita pelos educadores e, devido à sua familiaridade, a máxima pode ser até mesmo abreviada e utilizada adjetivalmente em nossa língua.
Um japonês que busque ativamente a auto iluminação dirá que está “treinando sua barriga” (hara wo neru). Embora a expressão possa ter implicações amplas, sua origem se encontra na necessidade óbvia de enrijecer os músculos do estômago, um pré-requisito para a prática do Karatê-Dō, que é, afinal de contas, uma técnica de combate. Levando os músculos do estômago a um estado de perfeição, o karateka é capaz de controlar não somente os movimentos de suas mãos e pés, mas também sua respiração.
O Karatê-Dō deve ser quase tão antigo quanto o homem, que desde seus primeiros dias se viu obrigado a enfrentar, desarmado, as forças hostis da natureza, animais selvagens e inimigos entre seus semelhantes humanos. Ele logo aprendeu, criatura insignificante que é, que em seu relacionamento com as forças naturais a acomodação era mais sensata que a luta.
Entretanto, onde havia um equilíbrio
maior, nas hostilidades inevitáveis com os seus semelhantes, ele foi obrigado a
desenvolver técnicas que lhe permitissem defender a si mesmo e, esperançosamente,
derrotar o inimigo. Para que isso acontecesse, aprendeu que tinha de ter um
corpo saudável e forte. Assim, as técnicas que começou a desenvolver — as
técnicas que por fim foram incorporadas ao Karatê-Dō são uma feroz arte de
combate, mas são também elementos da absolutamente importante arte da
autodefesa.
No Japão, o termo sumô aparece na antologia poética mais antiga do pais, o Man‘yõshú. O sumô daquele tempo (século oitavo) integrava não somente as técnicas que encontramos no sumô atual, mas também as do judô e do Karatê-Dō; este último teve um desenvolvimento maior devido ao incentivo do budismo, visto que os monges o utilizavam como um meio de percorrer o caminho rumo à auto iluminação. Nos séculos sétimo e oitavo, budistas japoneses viajaram para as cortes de Sui e T’ang, onde aprenderam a versão chinesa da arte, trazendo para o Japão alguns de seus aperfeiçoamentos.
Durante muitos anos, aqui no Japão, o Karatê-Dō continuou confinado nos largos muros dos templos, de modo particular dos do budismo zen; aparentemente, não era praticado por outras pessoas até que os samurais começaram a treinar no recinto dos templos e assim ficaram sabendo da existência da arte. Como o conhecemos atualmente, o Karatê-Dō foi aperfeiçoado, nos últimos cinquenta anos, por Gichin Funakoshi’O-Sensei.”...
Fim da primeira parte.
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