domingo, 28 de dezembro de 2025

Durante esse ano de 2025:

-   Como karateka, cultivei com SINCERIDADE um caráter virtuoso?

- Como karateka, mantive-me FIRME e FIEL ao “verdadeiro” caminho da razão, sem interferência do ego?

- Como karateka, ESFORCEI-ME o melhor que pude nas minhas atitudes e ações?

- Como karateka, respeitei as normas de CONDUTA e também ao próximo?

- Como karateka, CONTIVE o meu espírito de agressão invariavelmente?

Então, Feliz Ano Novo!


Prof.Sylvio Rechenberg

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Natal 2025 D/C

Uma data de reflexão, de recolhimento, uma nova oportunidade de olharmos para dentro de nós mesmos, de silenciarmos as nossas vaidades, de sentarmos e escutarmos uma antiga lição, vinda do alto, onde a nossa capacidade não permite alcançar, onde o tempo não existe, onde tudo sempre "É" e jamais deixará de "Ser" e existir, onde reina a Glória Divina, o Alfa e o Ômega, de onde tudo é Luz, onde junto ao Pai está o seu amado filho Jesus Cristo, o nosso Salvador e Senhor! Que o Natal seja Dele e que possamos tê-lo "presente" em todas as nossas ações, realizações e principalmente em cada uma das nossas intenções!

Feliz Natal!

Prof.Sylvio Rechenberg

OSS!!!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Cuidado com a "liberdade"!

Buscar o "ideal virtuoso" é seguir por um "caminho" estreito! 

O "caminho" original, que conduz ao "ideal virtuoso", certamente um dia já foi vivenciado e ensinado como ser trilhado, desbravado, conquistado, com um caráter inquebrantável, incorruptível, inviolável, imutável! Fruto de um esforço indômito, movido por uma fé genuína tão presente e natural quanto o ar que respiramos! 

Enquanto os "atalhos" conduzem os aloprados, o "caminho" segue o "ideal virtuoso"! No Karatê-Dō, assim como na vida, quanto mais largo o "caminho" maior o "descaminho"!

Prof.Sylvio Rechenberg

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A menina chinesa e sua inspiração transcendental:

Nesta viagem no tempo, aprenda como uma luta entre dois grous, em 1650 na província de Fujian (China), resultou na criação dos fundamentos do Kata Kanku-Dai .

Há 370 anos, em uma pequena vila no condado de Yongchun, na província de Fujian (China), as águas azuis de um lago banhavam suavemente as margens gramadas. A cena incluía dois grandes grous brancos lutando ferozmente entre si. Movendo-se agilmente com suas longas pernas, eles trocavam bicadas entre si. Completamente brancos em sua plumagem, concentrados em sua luta, ignoravam o mundo ao seu redor.

Perto dali, observando a luta atentamente, a jovem Fang Qiniang não resistiu à tentação. Como o grou é um símbolo de felicidade e eterna juventude em toda a Ásia, ela pegou um graveto do chão e decidiu apartar a briga. Os grandes pássaros brancos não desistiram da luta, mas o que era um conflito entre dois, transformou-se em uma luta envolvendo três. Eles se esquivaram dos golpes de bastão com movimentos corporais graciosos e atacaram a jovem com bicadas entre as asas abertas. Surpresa e derrotada, Fang foi forçada a abandonar a luta e meditou profundamente sobre o que havia acontecido.

Fang estava sendo treinada em artes marciais por seu pai, mestre de Chuan Fa, uma luta chinesa ocidentalizada e generalizada como Kung Fu. Seu pai, zeloso e preocupado com a segurança e a saúde mental e física da filha, a submetia a um rigoroso treinamento diário.

A jovem, cativada pelos movimentos dos grous brancos, inspirou-se neles para criar ataques e contra-ataques de combate, logo incorporados ao seu treinamento diário. Assim nasceu o estilo de Kung Fu conhecido como Grou Branco de Fujian , ou luta do Grou Branco, praticado no sudoeste da China. Seus movimentos são leves e graciosos, porém poderosos e vigorosos, criados pela jovem Fang Qiniang, e logo encantaram o povo de Fujian.

A técnica se espalhou pela China e Ásia, chegou às ilhas de Okinawa, transcendeu as brumas do tempo, existe e é praticada até hoje.

Kanga Sakugawa'Sensei


Kwang Shan Fu (Kusanku), militar, monge e embaixador em 1750.

Em 1750 a última dinastia imperial chinesa reinava há mais de cem anos. E foi o rei Qing (Qingé Tchin) que deu nome à China moderna.

Em busca de aproximação política e comercial com as ilhas de Ryukyu (Okinawa), o imperador Qing enviou para a cidade de Shuri, capital das ilhas, o militar e embaixador Kwang Shan Fu (Kusanku) natural da província de Fujian, onde estudara e aprendera a arte marcial do Grou Branco criada pela menina Fang Qiniang.

Ao chegar a Shuri como representante oficial do imperador chinês, foi recebido com grande respeito, tanto pelas autoridades quanto pela população local.

Dada a dificuldade notória dos japoneses em adaptar-se aos sons de línguas estrangeiras, o embaixador logo passou a ser chamado Kusanku, uma corruptela fonética de Kwang Shan Fu.


Shuri-te, a fusão do (Te)=(Mão) de Ryukyu com o (Fujian White Crane).

Em sua nova moradia na cidade de Shuri, Kusanku'Sensei logo estabeleceu forte relação de amizade com um dos maiores mestres de (Te) das ilhas Ryukyu, Peichin Takahara'Sensei (1683 – 1760)

Takahara'Sensei era também de casta militar, estudioso de astronomia e cartografia. Consta que ele desenhou os primeiros mapas das ilhas de Okinawa.

Naquela época, Takahara'Sensei, já com idade de 68 anos, mantinha o ensino e prática da luta marcial das ilhas, conhecida como (Te). Entre seus alunos, destacava-se um jovem de 18 anos, Kanga Sakugawa (1733 – 1815)

Reconhecendo o potencial do aluno nas artes marciais, ele o recomendou a seu amigo Kusanku'Sensei para treinamento. Assim, Sakugawa, o aluno de (Te), tornou-se discípulo de Kusanku'Sensei.

Virou uma lenda em Shuri pelas suas habilidades marciais. Ficou conhecido como Tode Sakugawa (Sakugawa Mão Chinesa). O aluno viajou com o mestre em mais de uma oportunidade para a China, onde permanecia por longos períodos de tempo, a treinar no Templo Shaolin de Fujian.

Tode Sakugawa resolveu consolidar as técnicas e práticas aprendidas ao longo de sua vida, unindo o (Te), aprendido em Okinawa, com os ensinamentos do mestre chinês Kusanku'Sensei. 

Então criou um Kata como forma de treinamento de combate, que denominou Kata Kusanku. Conseguiu assim, além de homenagear, imortalizar o nome do mestre que tanto lhe ensinou.

Nunca conseguiu formar um discípulo, apesar de uma promessa a seus mestres de que o faria. Até que, em 1812, com a idade de 79 anos, para honrar sua promessa, aceitou um aluno, filho de um amigo, adolescente encrenqueiro e problemático: o jovem Sokon Matsumura (1809 – 1899).

Gichin Funakoshi'O-Sensei


Sokon Matsumura'Sensei, fundador da escola Shorin-ryu

Destaca-se um dos rigorosos treinamentos onde o jovem Matsumura era amarrado a um tronco de árvore, de modo a não poder se esquivar ou recuar frente a um ataque. Recebia uma sequência de socos e chutes, e assim logo adquiriu perícia e fama.

Conheceu uma jovem, Yonamine Chiru, também reconhecida por suas habilidades em lutas e artes marciais. Yonamine, que vinha de uma família famosa nas ilhas pelas características guerreiras, propalava que jamais se casaria com um homem que fosse menos habilidoso que ela.

Então, Sokon Matsumura demonstrando a sua habilidade a encantou; tomou-a para o que seria o casamento da sua vida. Tornou-se o principal oficial militar a servir o rei Sho Tai, o último rei de Okinawa, antes da anexação final das ilhas ao Império Japonês em 1879.

Matsumura'Sensei manteve o ensino e assim disseminou o Kata Kusanku. O Kata é praticado até os dias de hoje, em escala mundial, como um dos principais da escola Shorin-ryu.


Gichin Funakoshi'O-Sensei  (1868 – 1957)

Yasutsune Itosu'Sensei, secretário do rei Sho Tai, e Yasutsune Asato'Sensei, conselheiro real e senhor da vila de Asato, foram os principais discípulos de Sokon Matsumura'Sensei.

Ambos foram os mestres de Gichin Funakoshi'O-Sensei. Mesmo assim, O-Sensei'Funakoshi também teve oportunidade de treinar diretamente  com Matsumura'Sensei , apesar da grande diferença de idade.  

E assim, mais tarde, O-Sensei'Funakoshi, para conseguir a aceitação e inclusão do Karatê-Dō na cultura japonesa, fez pequenas alterações da forma, sem alterar a estrutura do Kata Kusanku, e o renomeou, chamando-o Kanku-Dai.

Expressa a união do céu, da terra e do seu praticante, enfrentando inimigos imaginários atacando de todas as direções. O grande movimento circular inicial, visto por um praticante de Fujian White Crane, simboliza as asas do grou.

Era o Kata preferido de O-Sensei'Funakoshi!

Até hoje, passados 370 anos, em nossos treinamentos rotineiros de Kanku-Dai, estamos a repetir os movimentos circulares das asas do grou, e assim, tornamos perene a inspiração e a criatividade da menina chinesa Fang Qiniang.

Por Luiz Alberto Küster

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Karatê-Dō Shotokan Ortodoxo: (publicado neste blog em 2015)

Seguimos os preceitos tradicionais do legado através da prática séria no estudo vivencial da Honorável Arte do Karatê-Dō original criado pelo fundador Gichin Funakoshi’O-Sensei!


O Karatê-Dō “Shotokan Ortodoxo” não é esporte, visa o auto aperfeiçoamento construtivo através do Budō (conter o conflito) e segue seus princípios considerando a essência, a estrutura e o alicerce da sua Arte original.

Gichin Funakoshi’O-Sensei jamais criou sua Honorável Arte com intuito de formar atletas, competidores, esportistas ou qualquer relação com tal gênero. Muito menos idealizou isto para o futuro das novas gerações!
 
Seu objetivo é mostrar o “Caminho” e tornar-se um modo de vida para cada um e consequentemente um ideal a ser atingido. O próprio “Caminho” colocar-lhes-á suas próprias dificuldades; estas darão a compreensão; a compreensão dará o conhecimento das leis da natureza e finalmente, com o conhecimento das leis da natureza, o conhecimento de si mesmo.

Atualmente existem no mundo diversas organizações relacionadas ao “Shotokan” porem já com varias ramificações e de múltiplas entidades regendo sobre o mesmo nome, infelizmente gerando distorções e interpretações variadas com relação a sua arte marcial original, principalmente enfatizando a competição desportiva como meta.

O sentido filosófico ideológico do Karatê-Dō de O-Sensei Funakoshi refere-se aos aspectos da sabedoria de vida ou modo de viver, de sua conduta para consigo e assim para com os outros e neste sentido conduzir-nos a uma vida com sabedoria, segurança, equilíbrio e Paz, buscando e priorizando unicamente o desenvolvimento no domínio sobre nós mesmos.

Como o próprio nome já diz, no Karatê-Dō “Shotokan Ortodoxo” não existe competição desportiva de nenhum tipo, em vez disso, mantém-se fiel aos ensinamentos originais do Karatê-Dō como O-Sensei desejava!

Provavelmente aquilo que o leitor conhece ou ouviu sobre " Karatê-Dō" se refere a esporte de competição, uma definição infelizmente contraria ao seu real conceito e finalidade. Lamentavelmente o nome " Karate " não constitui hoje um símbolo de qualidade.

Muita coisa aconteceu desde que, em Abril de 1922, Gichin Funakoshi’O-Sensei foi incumbido pelos seus mestres em Okinawa de apresentá-lo publicamente no Japão.

Infelizmente como o próprio Fundador escreveu em 1956, nem todos os caminhos desde então abertos, foram para si motivo de orgulho. Particularmente, o caminho da competição desportiva no "Karate", foi claramente recusado pelo mestre!

Hoje só no Brasil mais de 90% das associações de "Karate" se dedicam à competição desportiva.

Certamente o “Caminho” do Karatê-Dō de O-Sensei é o oposto!

Prof. Sylvio Rechenberg


terça-feira, 18 de novembro de 2025

Ser ou não ser, eis a razão!

Todos,  somos fracos ou fortes com relação a um número inimaginável de "coisas" que vivenciamos ao longo do tempo. Enquanto alguns são "fortes", outros já são "fracos" nas incontáveis situações. Alguns têm a capacidade de "construir", sendo "fortes", enquanto outros têm a capacidade de "destruir", sendo "fracos", às  vezes a si próprios. A questão é com o "ego e os outros". Contudo, tais particularidades podem mudar com o tempo e com as circunstâncias encontradas no “caminho”. Por vezes, nós mesmos as causamos, outras vezes, as tais circunstâncias, aparecem de uma hora para outra e quando menos esperamos, estamos diante delas, que até então eram desconhecidas, ou mesmo ignoradas e até desprezadas por serem desafiadoras. E assim, na estrada da vida amadurecemos, para então aprendermos a conhecer um pouco mais sobre nós mesmos e assim  sobre os outros. Esse é o "caminho" do Karatê-Dō  de O-Sensei’Funakoshi, onde ser "forte" ou "fraco" a vida manifestará!

Prof.Sylvio Rechenberg

sábado, 8 de novembro de 2025

Cultivar é preciso, precioso é o cultivo!

YUCHOKU HIGA'Sensei (1910-1994) (Shorin-ryu Kyudokan de Okinawa), costumava dizer: – “ Kata ya Kasadame, waza ya waza sadameta " (Kata deve ser feito com as técnicas estabelecidas e as técnicas devem ser aplicadas de acordo com seus princípios). Nada deve ser mudado!


Um Kata nunca muda, quem deve mudar é quem o pratica! 

Prof.Sylvio Rechenberg

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Muitas Armas (escrito por O-Sensei'Funakoshi)

Página 91 do livro de O-Sensei (Karatê-Dō - O meu modo de vida) 


Muitas Armas (Texto resumido):

Muitas pessoas têm a impressão equivocada de que as armas do Karatê-Dō são apenas as mãos (fechadas ou abertas), os braços, os pés e as pernas. Entretanto, não é exagero afirmar que todas as partes do corpo, desde o topo da cabeça até a ponta dos dedos dos pés, podem ser usadas como arma. Quase não há partes do corpo que não possam ser utilizadas dessa forma.
Gostaria de descrever rapidamente as partes mais frequentemente usadas, bem como a maneira mais eficaz de empregá-las.
Certamente, devemos começar com o SEIKEN, o punho normal, pois esta é a arma mais básica do Karatê-Dō, além de ser a mais utilizada. Ele é formado apertando os quatro dedos contra a palma e posicionando o polegar entre os dedos indicador e médio. Se o polegar for inserido mais profundamente, há risco de machucá-lo ao desferir um golpe; portanto, deve-se ter extremo cuidado para que ele não ultrapasse o dedo médio.
As juntas formam um ângulo mais agudo do que reto. No início, será difícil formar o punho corretamente, e o praticante se cansará rapidamente, mas com prática contínua, acostumar-se-á e conseguirá fechá-lo com firmeza. Além disso, os nós dos dedos ficarão bem desenvolvidos e formarão uma saliência semelhante a um calo, enquanto as bases dos dedos formarão pelo menos ângulos retos. Em praticantes experientes, o ângulo se torna agudo.
Um momento propício para praticar a conformação do SEIKEN é durante o banho. Recubra as mãos com sabonete, de modo que os dedos fiquem escorregadios; em seguida, abra e feche os punhos da maneira descrita, o maior número de vezes possível.
O novato perceberá que, ao liberar o golpe com o SEIKEN, a mão tende a dobrar no punho. Um golpe desferido com o punho dobrado nunca é eficaz e há sempre o risco de torcer o pulso.
Quando usado corretamente, a junta do dedo médio atinge o oponente em um golpe direto, com toda a força do braço que o acompanha. O SEIKEN pode ser apropriadamente chamado de "coração do Karatê-Dō" e deve ser praticado diariamente e com extrema meticulosidade. Se não for totalmente eficaz, todos os Katas e Kumite tornam-se inúteis.
A maneira mais popular de treinar o SEIKEN é utilizando o makiwara...
Além disso, o makiwara também fortalece a mão em espada (SHUTO), os cotovelos e os joelhos. Não é exagero afirmar que a prática com o makiwara é a base para a formação de armas vigorosas.
No início, o principiante sentirá dor considerável nos punhos ao golpear o makiwara; por isso, recomenda-se recobrir a palha com uma toalha. Após preparar o makiwara, o praticante assume a posição meio-frontal (hanmi) diante dele, garantindo que a distância entre ele e a coluna seja suficiente para que o punho alcance o alvo. Dobra os joelhos completamente e baixa os quadris. A mão esquerda permanece fechada à frente, a cerca de quinze centímetros do makiwara; a mão direita, também fechada, fica junto ao quadril, palma voltada para cima. Os olhos ficam fixos no makiwara, e a força concentra-se no abdome inferior (Tanden).
O ponto mais importante é a posição: as pernas devem estar firmemente plantadas no chão. Em seguida, vem o golpe em si: o punho direito, fechado e próximo ao corpo, é lançado contra o alvo; simultaneamente, o quadril direito gira na direção do alvo com toda a força possível, enquanto o punho esquerdo, fechado e a quinze centímetros do makiwara, é projetado para trás, no lado esquerdo. Ao atingir o alvo, o punho direito deve girar rapidamente, em um movimento de saca-rolha, tornando o golpe mortal. Essa ação é difícil de controlar e deve ser praticada indefinidamente.
Sugere-se que o principiante golpeie o makiwara com força leve no início, aumentando gradualmente até se acostumar com um golpe mais vigoroso. Ao final, será possível desferir golpes com toda a força. Mesmo um novato que golpeie suavemente pode sentir dor na mão ou apenas tocar levemente o alvo, o que pode causar contusões ou inchaço. O inchaço pode ser aliviado mergulhando a mão em água gelada, mas contusões exigem que o treino seja interrompido até a recuperação.
Reforço dois ou três pontos fundamentais sobre o SEIKEN: a posição deve ser baixa, os quadris devem girar rápida e vigorosamente, e o punho deve aplicar toda a força do corpo. Uma observação adicional: um praticante que se vangloria de formar calos nas juntas dos dedos ainda não compreendeu o verdadeiro significado do Karatê-Dō. Quem pratica Karatê-Dō apenas como calistenia não precisa usar o makiwara; é possível executar todos os movimentos necessários sem desferir golpes.
Outro golpe importante além do SEIKEN é o URAKEN, desferido pelo dorso do punho, em que a parte que atinge o adversário corresponde principalmente às juntas do primeiro e segundo dedos. Ao treinar com o makiwara, deve-se garantir que as juntas dos quatro dedos atinjam o alvo. O URAKEN é eficaz para atingir o rosto, as axilas e os lados do tronco, especialmente em ataques laterais do oponente.
O TETSUI, ou punho-martelo, é formado com o polegar entre os dedos, como no SEIKEN, mas a parte que golpeia é a palma localizada sob o dedo mínimo. Embora alguns considerem este golpe menos eficaz, quando bem treinado com o makiwara, o TETSUI é extremamente poderoso. Apesar de a área que atinge o alvo ser macia, ela não sofre danos significativos, tornando o TETSUI ideal para golpear punhos ou outras juntas do adversário.
A mão em lança (NUKITE) penetra o oponente com a ponta dos dedos, mantendo o polegar dobrado na palma e os dedos unidos e estendidos. Inicialmente, pode-se imaginar que os dedos sofrerão ferimentos, mas com prática, o NUKITE é eficaz contra o rosto e o plexo solar.
O SHUTO, ou mão em espada, é semelhante ao YOHON NUKITE, mas o golpe é desferido pela parte macia da palma sob o dedo mínimo. O makiwara é útil para fortalecer essa arma, que é especialmente eficaz contra pescoço, lados, braços e pernas do adversário.
EMPI, os cotovelos, são usados frequentemente de forma ofensiva e defensiva — seja quando o adversário tenta agarrá-lo, ataca pela frente ou lateralmente, ou ao realizar movimentos de defesa ou aproximação. Os cotovelos atingem rosto, cabeça, peito, lados e costas, além de protegerem o praticante e permitirem golpear as pernas do oponente em quedas. Por sua resistência, também podem ser usados eficazmente por mulheres e crianças, desde que haja prática adequada.
Movimentos de perna e pé são armas essenciais do Karatê-Dō, muitas vezes surpreendendo o adversário. Principalmente usados para chutar, também podem servir para bloqueios. Apesar de mais fortes que os braços, as pernas exigem muito treino para uso eficaz. Há também risco de perder o equilíbrio ao errar um chute, expondo o praticante a ataques.
KOSHI refere-se à sola do pé usada para golpear o adversário frontalmente, semelhante ao SEIKEN, mas exigindo que o pé esteja suficientemente retesado e a força concentrada no tornozelo; caso contrário, torna-se perigoso para quem o utiliza. O calcanhar (ENJU-KAKATO) é útil contra adversários que atacam pelas costas, tentando agarrar o corpo.

Gichin Funakoshi'O-Sensei

sábado, 18 de outubro de 2025

Caráter! (Publicado em 2012 nesse Blog Educativo)

Quando o entusiasta vem até junto de uma fonte, crê que a fonte seja sua "luz". Logo, o entusiasta já é parte da fonte e dela se vale para a vida. Adiante vão meses, anos de prática intensa, sacrifícios e luta sem fim. Cada dia é uma vitória e cada vitória é uma soma na trajetória do "caminho" almejado. Passos lentos, firmes, decisivos, construtivos, fundamentados com o suor na fronte, criam raízes e se mantêm.

Até que o exterior começa a falar mais alto que o interior, geralmente nas fraquezas. Muitas vezes envolto por familiares próximos e amizades duvidosas, aos poucos se desvia e corrompe a jornada.

Muitas barreiras, tropeços e fracassos são oriundos das influências paralelas. Influências que distorcem a continuada e aguerrida busca interior genuína. Não raro se vê pessoas manipuladas por falsas expectativas, ansiedades, objetivos vazios, pretensões infantis, ilusões materiais e inversão de valores.

Contudo, aqueles que ultrapassam o limite do ego e de tudo que dele provém, se incorporam na vasta casta do legado superior, desbravado pelos homens de aço que se forjaram na imutável e inabalável manifestação de um "caráter samurai"!

Prof. Sylvio Rechenberg

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

domingo, 28 de setembro de 2025

Pensar, Imaginar e Expressar como nossos anciãos!

“... A prática, eu digo sempre, é pensar, imaginar e expressar os ensinamentos de nossos anciãos.

“... A verdadeira prática não está em fazer exercícios no Dōjo. No Extremo Oriente (incluindo o Japão), há um ditado: "Soku Ze-Dōjo", que significa "onde quer que se esteja e em qualquer momento, cada momento é de um ano e cada lugar é um Dōjo".”
“... Quanto aos detalhes da técnica, é completamente normal que não seja perfeita ainda, mas a técnica pode melhorar com o tempo e bons conselhos; este não é um problema fundamental. A chave é o espírito, a atitude!”
“... Há mais de meio século, o "Karatê" de O-Sensei’Funakoshi passou de "Karatê-Jutsu", para o "Karatê-Dō", “... Pense e volte naquele tempo novamente e reflita sobre as palavras do nosso mestre: “Não existe competição no Karatê-!.”
“... Para alcançar a verdade absoluta, precisamos caminhar juntos para formar um mundo acima da “luta”(conflito), com uma prática sincera e ardente que irá abrir o “Caminho” do Karatê-Dō não como uma arma de morte, mas como uma arma de vida.”

Palavras de Shigeru Egami’Sensei 

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Na prática!

Hoje, no Dōjo , ouvi alguém dizer: "a prática do Karatê-Dō  também contribui para superar as noites em claro, na assistência ao filho pequeno, que algumas vezes se mantém desperto". 

Também ouvi de alguém: "nesta semana, me ofereci para carregar alguns quilos de bom peso, subindo lances de escada, durante uma parte do dia, considerando aquele trabalho, como um exercício de Karatê-Dō ". 

Logo, a prática regular do Karatê-Dō, a necessária disposição, tanto no trabalho quanto nos afazeres de casa, independe de hora e lugar, está sempre presente, promovendo forte intenção e dela realizando a ação de vários benefícios. 

São esses feitos que acontecem no "Dōjo pessoal" da vida diária, que comprovam a força e o poder de uma prática regular, que qualquer pessoa em qualquer tempo na sua vida pode vivenciar.

Prof.Sylvio Rechenberg

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Vale quanto "pesa":

Quanto “vale” o Karatê-Dō que você pratica, já parou para pensar sobre isso?

Cada aula praticada envolve:


ARTE MARCIAL TRADICIONAL 

LEGITIMA DEFESA 

AUTO-APERFEIÇOAMENTO

DISCIPLINA 

INTEGRIDADE 

AUTOCONTROLE FÍSICO MENTAL

BIO ENERGIA

CONSCIÊNCIA DA RESPIRAÇÃO

FORÇA INTERIOR

ESPIRITUALIDADE

PERCEPÇÃO INTUITIVA

CONCENTRAÇÃO

EQUILÍBRIO

PERSISTÊNCIA

LIDERANÇA

AUTO-REFLEXÃO

SABEDORIA

CONSCIÊNCIA CORPORAL

HARMONIA

EXPRESSÃO CORPORAL

RELAXAMENTO 

DESCONTRAÇÃO

GINÁSTICA NATURAL

COORDENAÇÃO MOTORA

AMBIDESTRIA SUPERIOR E INFERIOR

EXERCÍCIOS AERÓBICOS E ANAERÓBICOS

ALONGAMENTO DINÂMICO   

ALONGAMENTO LOCALIZADO

FLEXIBILIDADE ARTICULAR E MUSCULAR

MOVIMENTO REFLEXO

VELOCIDADE DE REAÇÃO

RESISTÊNCIA 

HUMILDADE

CULTURA ORIENTAL

NOMENCLATURA JAPONESA


Prof.Sylvio Rechenberg   

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Dos 11 aos 88 sem nunca parar de "praticar"!

O'Sensei'Funakoshi e Isao Obata'Sensei (Kihon-Ippon-Kumite)

Vale a pena rever sempre que cogitar em desistir!

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

O "caminho" da mão vazia - Karatê-Dō (空手道)

"Segundo Gichin Funakoshi'O-Sensei, situando-se o combate de Karatê-Dō entre a vida e a morte, não podemos treinar seriamente senão através das formas de combate convencionais, através das quais cada um se esforça por ultrapassar os seus limites." 

Admitindo que a vida é luta, duas perspectivas se pode colocar: Podemos pensar nela como uma luta pelo pódio onde é preciso subir, custe o que custar, vencendo para isso os nossos semelhantes, vistos como competidores. Ou podemos vê-la como uma luta pela Vida que se pode percorrer em harmonia e respeito pelos outros, parando o conflito (Budō) e sabendo usar a nossa força e a do nosso semelhante com benefícios mútuos. (C) Copyright: José Patrão, 2000 - 2003

(Texto publicado neste blog-educativo em 2008)

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Que valor tem o "caminho"?

Quando iniciei a minha "caminhada" nunca imaginei que isso iria mudar a minha vida e se transformaria num modo de aprender a se conhecer e a valorizar tamanho "saber"!

Saber valorizar depende de como esse "saber" foi pretendido aprender!

Existem duas formas de "aprender", uma delas é o "caminho"!

Prof.Sylvio Rechenberg

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Kyudo Mugen 究道無限

O caminho do estudo nunca acaba! O caminho do aprendizado não tem fim. Não importa o quão profundamente você esteja buscando o "caminho" [do Karatê-Dō ], não há limite! Não importa o quão profundamente você esteja buscando o "caminho", não há limite para ele!   O Karatê-Dō  é sobre treinamento e aprendizado para a vida toda! 

                                      Kyudo Mugen

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Brincar de carrinho ou dirigir um carro de verdade?

Muitos querem aprender Karatê-Dō, querem aprender como dar um soco, como chutar, como se defender numa luta, contudo, se esquecem que isso requer bem mais do que reproduzir movimentos, imitar gestos com as mãos, braços e pernas, algumas horas por semana.

Isso se vê em qualquer academia, na ginástica aeróbica, na musculação, na dança e por aí vai, tudo se imita e através da imitação se reproduz um movimento, que faz muito bem para a saúde se for feito corretamente. 

No Karatê-Dō então, a questão é qual o sentido, qual o objetivo, para que isso serve, qual a intenção por trás disso.

Quando se fala em defender a própria vida, quando se quer aprender a "lutar para sobreviver", para "se manter vivo" num confronto real, então a coisa muda completamente de figura. 

No momento em que você está diante de duas escolhas, viver ou morrer, a escolha fica obvia, mas nessa hora não tem mais tempo para refletir, ou se preparar pelo "manual"!

E aí é que está a questão, o Karatê-Dō trata disso e se não for com esse conceito que você pratica, que você estuda e que você verdadeiramente busca desenvolver no Dōjo , você me desculpe, mas está completamente equivocado, iludido, fantasiando uma coisa que você não conseguirá reproduzir em uma situação real se continuar no faz de conta, no protelar, empurrando com a barriga!

Isso que incomoda, e que deve fazer a gente agir da forma correta, e que deve ser a razão para nos manter praticando todos os dias, sem exceção, sem desculpas, sem interferência, sem qualquer coisa que nos desvie desse foco!

Pessoalmente, eu também me cobro muito porque sei que preciso me superar! Tudo à nossa volta nos faz lutar se observarmos com atenção, a cada respiração que fazemos estamos lutando pela vida, sendo o bem mais precioso que temos, mas que nos foi emprestado por um tempo! 

Você tem uma força interior desconhecida dentro de você, à medida que avança no "caminho" do Karatê-Dō, você vai tomando consciência disso, e, portanto, tudo fica claro como o dia, só que NÃO é por meio de uma prática como se faz no esporte, num jogo, numa recreação ou em algumas horas de treinamento suado, se você quer realmente aprender Karatê-Dō então você preciso MUDAR o teu pensamento!

Prof.Sylvio Rechenberg


terça-feira, 8 de julho de 2025

O Karatê-Dō não é para graduação, glória ou vingança (Minoru Higa'Sensei - Okinawa)

“A coisa mais importante sobre o Karatê-Dō é treinamento básico e comunicação!

Muitos jovens de hoje treinam muito duro por um tempo e depois param. Isso não é bom! Você deve treinar um pouco, mas você deve treinar com frequência. Consistência é o que cria um grande artista marcial, não força bruta.

O Karatê-Dō não é para graduação, glória ou vingança! É um modo de vida: uma maneira de se proteger, uma maneira de construir saúde e uma maneira de unir as pessoas.

Quando treinamos, treinamos como uma comunidade, para que possamos nos esforçar para nos tornar melhores do que ontem. Eu penso em um dojo como um caldeirão, ele pode trazer muitas pessoas diferentes para fazer a mesma coisa, ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Isso torna as pessoas homogêneas. Este tipo de ambiente cria paz. O Karatê-Dō  é sobre a criação da paz! "

Minoru Higa'Sensei (Shorin-ryu Karatê-Dō Kyudokan)

sábado, 28 de junho de 2025

Reflita em silêncio!

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Para que é esse Kata?

Você que pensa que "dominou" um Kata e o pratica por saber que será cobrado em algum momento e, portanto, o executa para não esquecer da sua "forma", da sua feitura, saiba então que você está completamente equivocado com esse tipo de atitude! 

Você está preocupado em não esquecer, em não passar vergonha quando for cobrado para executá-lo, você está preocupado de que na hora de uma sabatina talvez não consiga lembrá-lo.

Mas não se pratica Kata para isso!

A menos é claro, que você esteja começando a manter os primeiros contatos com essa "forma" (Kata) e se apropriando de como essa "forma" deve ser executada, ou de como é formada essa "forma", para que ela seja corretamente praticada.

Para aprender corretamente um Kata o tempo de uma vida ainda não será o suficiente, principalmente se você o pratica somente quando está no Dôjo!

Então, se você frequentasse o Dôjo regularmente três vezes por semana e executasse esse mesmo Kata uma vez em cada aula, no final de um ano de prática, você teria executado 156 vezes esse único Kata.

Então, repetindo 156 vezes uma sequência de movimentos que visam a "autodefesa", você garante que ao final desse ano você estará preparado para aplicar parte desses movimentos nas vias de fato em um conflito físico real?

Se você praticar as técnicas que compõem esse Kata, isoladamente, inúmeras vezes em cada aula no Dôjo, talvez no final de um ano, algumas dessas técnicas tenham uma certa eficiência, se forem aplicadas corretamente, mas mesmo assim ainda não estarão absorvidas, ainda não estarão incorporadas a um estado de ação e reação instintivos necessários para uma situação de conflito real.

E isso sem contar com o teu calejamento para suportar impactos nas partes do corpo que serão utilizadas para atacar e defender ao executar essas técnicas, quanto no teu condicionamento físico geral de resistência para suportar socos e ponta pés, bem como se manter assim o tempo que for necessário. 
   
Portanto, num confronto real, a emoção do medo, o estresse, a ansiedade, farão você paralisar, farão você esquecer tudo o que aprendeu, farão você agir descoordenadamente, involuntariamente e desesperadamente para tentar sair vivo daquela situação. 
  
Então, considerando o Kata como uma ferramenta capaz de qualificar ações dinâmicas marciais que devem ser incorporadas, compreendidas e aplicadas, não contra um, mas contra vários adversários, certamente esse objetivo ainda estará muito longe de ser alcançado.

Logo, a questão então não é praticar para não esquecer, mas praticar para sobreviver em uma eventual situação de conflito físico real.
 
Somente assim esse Kata se tornará parte de você, onde você poderá se valer das suas reais finalidades, pelas quais foi criado e passado de geração em geração para ser assim praticado e incorporado ao instinto de sobrevivência que está presente em cada um de nós!

Prof.Sylvio Rechenberg     

domingo, 8 de junho de 2025

Atentai bem sobre esse texto publicado neste Blog Educativo em 2017.

Resumo e compilação:

“... Eu comecei a treinar no Dojo de O-Sensei’Funakoshi  e a formação era na maior parte Kata, eu diria aproximadamente 80% Kata e 20% Kihon, ...Na verdade, passamos o primeiro ano e meio apenas no Heian Shodan.

“... eu me lembro que ele(O’Sensei) era uma pessoa muito séria e qualquer erro no Kata tínhamos que repetir e faze-lo novamente até que não houvesse mais erros.”

“... ele(O’Sensei) simplesmente não acreditava em chamar Karatê por um estilo. Era apenas Karatê para ele.”

“...quando o Dojo de O-Sensei’Funakoshi foi destruído durante a guerra, todos os estudantes se mudaram para a faculdade para treinar.”

“...Dois grupos começaram a funcionar; o grupo dos alunos mais velhos e o grupo dos mais jovens. O grupo dos mais jovens queriam Nakayama’Sensei para estar no comando e o grupo dos mais velhos queriam Obata’Sensei para estar no comando, porque ele era o mais antigo.”

“...acho que é muito difícil para os americanos ou não-japoneses compreender a ideia da cultura japonesa. A ideia de “Mukso” ou respeito, etc, não fazem parte da cultura americana desde o nascimento como é no Japão. Então eu acho que os americanos nunca podem entender totalmente esta parte do Karatê.”

“...Este é o meu desafio ou objetivo: ensinar os não-japoneses a entender a cultura japonesa.”

“...A finalidade da ITKF é preservar o Karatê tradicional na maneira correta. Um dos perigos é o Karatê torna-se apenas um esporte! Se a definição de Karatê se tornar um Karatê de competição, isso não é o que estamos tentando fazer. Karatê é primeiramente uma arte marcial. A competição é apenas uma das formas de treinar o nosso Karatê tradicional.

“.... Se a competição se tornar a definição para o Karatê, então iremos transforma-lo num Karatê de má qualidade e as técnicas se tornarão ineficazes. Não é assim que preservaremos o Karatê como uma arte marcial.

“... tenho como missão preservar o Karatê tradicional e tudo o que ele representa e quando algumas pessoas querem me fazer ceder, eu não cederei. Eu devo ser muito forte e me manter firme contra essas mudanças que eles querem. Preciso preservar o Karatê como uma “arte” para a próxima geração.

“...Eu digo a estas pessoas, "você faz o que quer, e eu vou continuar ensinando o Karatê como uma arte tradicional".

“...Se o Karatê é para durar, deve ter uma base forte ou se tornará um esporte morto como o judô se tornou.

“... muitas pessoas podem tocar instrumentos musicais, mas poucos podem tocar a música de "Beethoven". É muito difícil.”

“...No Karatê o objetivo(da técnica) é eliminar o inimigo com um único golpe como com o corte de uma espada, um corte, uma vida.”

“...Os samurais eram soldados profissionais. Trabalhavam para seu chefe. As artes marciais são diferentes, porque são sobre o desenvolvimento pessoal para se tornar uma pessoa melhor.

“...(no futuro)Gostaria que o Karatê tradicional fosse exatamente a mesma coisa, ensinado como é hoje. Devemos lembrar que o karatê não é uma ciência. É uma “arte”. Usamos a ciência para melhorar a forma de arte.

“...Acho que isso pode ser melhor explicado se pensarmos em um pintor ou artista. Ele deve usar os pinceis, a tela e as tintas para criar uma bela pintura, mas ainda é o homem que deve fazer a pintura. É por isso que o Karatê também é uma forma de Arte.”

Hidetaka Nishiyama’Sensei

esquerda Masatoshi Nakayama'Sensei, centro Isao Obata'Sensei e direita 
Hidetaka Nishiyama'Sensei.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

O Perigo do Orgulho ( por Gichin Funakoshi'O-Sensei)

Num início de noite, pouco depois de completar meu trigésimo aniversário, dirigia-me de Naha de volta para Shuri. A estrada estava solitária e ficou ainda mais solitária depois do Templo Sogenjí. À esquerda se estendia um cemitério, e nas proximidades localizava-se um grande reservatório de água onde nos dias há muito passados os guerreiros costumavam dar de beber a seus cavalos. Ao lado do reservatório encontrava-se uma área gramada com uma pequena plataforma de pedra no centro; os jovens de Okinawa vinham a esse lugar para testar sua força em confrontos de queda-de-braço.

Naquele anoitecer em particular, enquanto passava, vários jovens estavam entretidos no esporte. Como já observei anteriormente, a queda-de-braço de Okínawa é um pouco diferente daquela praticada no resto do Japão. Eu gostava muito do esporte e (devo confessar) não sentia falta de confiança. Parei e fiquei olhando por algum tempo. 

De súbito, um deles gritou para mim, “Ei!, você! Venha cá e faça uma tentativa! A menos que tenha medo, naturalmente.” “Isso mesmo! “, acrescentou outro. “Não fique aí olhando. Isso não é educado!” 

Eu não estava procurando encrenca mesmo; por isso disse, “Por favor, me desculpem, mas devo ir agora.” E retomei meu caminho. “Oh, não, você não vai!” E, com isso, dois deles correram na minha direção. “Fugindo?”, escarneceu um. “Você não tem boas maneiras?”, perguntou outro. Juntos, os dois me agarraram e arrastaram até a plataforma de pedra. Lá estava sentado um homem mais velho que entendi ser o juiz — e provavelmente o praticante de queda-de-braço mais forte do grupo. 

Sem dúvida, eu poderia ter usado as habilidades que tinha adquirido e fugido sem dificuldade, mas decidi aderir ao esporte. Venci com facilidade o primeiro confronto, mantido com o jovem que parecia o mais fraco do grupo. O segundo jovem também foi uma vítima fácil. E o mesmo aconteceu com o terceiro, o quarto e o quinto. A essa altura, restavam apenas dois homens, um deles o juiz, e ambos pareciam oponentes fortes. “Bem”, disse o juiz, com um sinal de cabeça para o outro, “agora é sua vez. Está preparado para um embate com este estranho?” “Penso que não”, interferi. “Já tive o bastante, e tenho certeza de não poder vencer. Desculpem-me, por favor.” Mas eles eram insistentes. Meu adversário seguinte, com o cenho carregado, agarrou minha mão, de modo que não pude fazer outra coisa senão combater. Também esse confronto foi meu, e bem rapidamente. “Agora preciso ir mesmo”, eu disse. “Obrigado. Por favor, desculpem.” Aparentemente, dessa vez minhas desculpas foram aceitas. 

Mas enquanto retomava o caminho para Shuri, tive uma sensação de que a caminhada não ficaria sem algum incidente. E estava certo, pois em pouco tempo ouvi sons atrás de mim. Por sorte minha, ao sair de casa cedo para ir a Naha, peguei um guarda-chuva, pois estivera chovendo. Agora que a chuva tinha parado, usava o guarda-chuva como bengala; decidi que serviria também como meio de defesa; assim, abri-o rapidamente e mantive-o protegendo a cabeça para prevenir um soco por trás. 

Bem, vou encurtar a história. Embora houvesse sete ou oito no grupo, consegui esquivar-me de todos os golpes dirigidos contra mim, até que finalmente ouvi a voz do mais velho dizendo, “Quem é esse rapaz? Parece que ele conhece Karatê.” O ataque terminou. Os homens ficaram ao meu redor, olhando-me com raiva, mas não houve mais socos e nem tentativas de bater-me quando retomei a estrada. 

Enquanto caminhava, ia recitando meus poemas favoritos, e ao mesmo tempo ficava atento a sons de movimentos furtivos, mas não ouvi nenhum. Quando cheguei a Shuri, estava cheio de remorso. Por que havia entrado no confronto da queda-de-braço? Teria sido por mera curiosidade? Mas a resposta verdadeira me veio à mente: era confiança excessiva em minha força. Numa palavra, era orgulho. Era uma violação do espírito do Karatê-Dō, e me sentia envergonhado. Mesmo ao contar a história agora, depois de transcorridos todos esses anos, ainda me sinto profundamente envergonhado.

Gichin Funakoshi'O-Sensei

domingo, 18 de maio de 2025

A fidelidade com o verdadeiro caminho da razão.

Dominar sequências de movimentos, conseguir chutar alto e veloz, conseguir fazer mil abdominais, mil flexões, dar conta de proezas atléticas, ser educado, disciplinado, ainda assim, apesar de admirável, todas essas coisas NÃO te transformam em um karateka!

O "caminho" do Karatê-Dō NÃO trata das virtudes de um atleta! 

O "caminho" do Karatê-Dō trata de superar as fraquezas do ego, de lutar consigo mesmo para nunca desistir de "lutar", trata de sentir-se em paz consigo mesmo e com o mundo ao redor. 

Para que haja essa paz, não pode haver conflito e, para que haja conflito, basta alimentar o teu ego!

Prof.Sylvio Rechenberg

quinta-feira, 8 de maio de 2025

O "Caminho Silencioso" (por D'Avila)

No silêncio do Dojō, antes do primeiro movimento, já começa o verdadeiro treino. Quando a voz se eleva para recitar os cinco princípios, não é apenas um ritual — é um pacto entre o corpo e o espírito, entre o guerreiro e o homem que escolheu crescer a cada queda.

Esforçar-se para a formação do caráter

Cada dia em que você veste o dōgi é uma escolha. A escolha de ser firme sem ser duro, de ser justo sem ser cego, de moldar a si mesmo como se molda o ferro — pelo calor do esforço e o frio da disciplina.

Fidelidade ao verdadeiro caminho da razão.

No Karatê-Dō, não há espaço para orgulho vazio. Há apenas o caminho — e ele exige honestidade. Com o outro. Com o mundo. Mas, sobretudo, com você mesmo.

Criar o intuito do esforço.

Você sabe o preço do retorno após a pausa. O suor que queima os músculos também aquece a alma. E a alma forjada no esforço nunca se quebra, apenas se curva — como o bambu que resiste ao vento.

Respeito acima de tudo.

A cada saudação, a cada rei, você aprende que a verdadeira força se curva. Não por submissão, mas por reverência. Ao oponente, ao sensei, à arte, e à dádiva de poder trilhar esse caminho com consciência.

Conter o espírito de agressão.

No cerne do Karatê-Dō, a mão que golpeia é a mesma que protege. Aprender a conter é mais difícil que aprender a atacar. Mas é aí que mora a essência: o controle absoluto, que só os fortes conhecem.

Jorge Luiz d'Avila

segunda-feira, 28 de abril de 2025

(Kara) o "vazio" do Karatê-Dō:

Além do óbvio, sem o uso de armas, o "Vazio" (Kara) representa uma constante busca por esvaziar o coração e a mente do egoísmo, da vaidade, da ambição, da prepotência, males que interferem no nosso dia a dia e que poluem o "foco" no correto auto aperfeiçoamento e na nossa paz interior.

O-Sensei'Funakoshi compara o praticante de Karatê-Dō a um (bambu verde), que por sua vez é "vazio" (Kara) por dentro, reto e com nó. Logo, sem nenhum interesse mundano, mantendo-se humilde, mas com retidão e disciplina nas suas ações.

O "vazio" é a verdadeira essência do Karatê-Dō, ​transcende as formas externas e técnicas, está enraizado num estado mental de constante clareza, permitindo assim agir com precisão: ​

... (A vacuidade, o vazio, jaz no coração de toda matéria e na verdade de toda a criação)...

... (Assim como um vale vazio pode ecoar o som, o praticante que se esvazia interiormente pode responder com eficácia às situações que enfrenta)... ​

(Gichin Funakoshi'O-Sensei)

sábado, 26 de abril de 2025

Vigília de Shoto 2025 (26 de abril)

Shoto era o pseudônimo que Funakoshi Gichin'O-Sensei usava para assinar os seus poemas. Amante das coisas simples e naturais, maravilhava-se, na sua juventude, com o ondular dos pinheiros batidos pelo vento marítimo nas vertentes dos montes onde se erguia o castelo de Shuri. Foi essa imagem da sua ilha natal de Okinawa que lhe inspirou o pseudônimo Shoto, o qual pode ser traduzido literalmente como "o pinheiro e o mar” e mais poeticamente como o "ondular dos pinheiros". Em 1935, os alunos mais antigos de Funakoshi'O-Sensei criaram uma fundação em honra do seu mestre, a qual tinha como primeiro objetivo reunir fundos para a construção de um Dojo. Em 1938, no dia em que, pela primeira vez depois das obras de construção estarem completamente prontas, o mestre franqueou o portão de entrada, virou-se para a direita para contemplar o belíssimo Dojo e deparou-se com uma inscrição escrita em caracteres brancos numa placa colocada sobre o alpendre de entrada - Shotokan. Essa expressão pode ser traduzida de uma forma simples por “Casa Shoto”, mas é provável que o sentir dos alunos na altura exigisse uma tradução mais formal – “o Paço de Shoto”. Na sua localização original, o Shotokan situava-se no bairro de Toshima, em Tóquio, um pouco ao norte da célebre Universidade de Waseda. Tendo sido o primeiro Dojo a ser erguido para a prática do Karatê-Dō no Japão e pertencendo ao homem que, 16 anos antes, em 1922, introduzira a sua prática na ilha central do Japão, compreende-se que se tenha tornado praticamente um local de culto para todos os karatekas dessa época e das gerações seguintes. Progressivamente, e por mera associação de ideias, os mestres primeiro, depois os alunos, passaram a ser conhecidos como os homens do Shotokan e o comitê originalmente criado em 1935 para a recolha de fundos para a construção do Dojo, que geriu depois a construção da obra, iniciada em 1936 e que, em julho de 1939, promoveu a sua inauguração formal perante as mais altas celebridades da época, passou a ser conhecido por Shotokai – expressão que pode ser traduzida simplesmente por “Associação (de amigos) de Shoto” ou, de modo mais formal, por “Fundação Funakoshi”. Esta associação era composta pelos alunos mais antigos de Funakoshi'O-Sensei – com destaque para o seu terceiro filho Funakoshi Yoshitaka, Saigo Kichinosuke, Obata Isao, Egami Shigeru e Hironishi Genshin. (C) Copyright: José Patrão, 2000 - 2003

           A escola Shotokan de O-Sensei em 1936 ano da inauguração.

domingo, 20 de abril de 2025

É Páscoa em 2025

Que a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, o nosso Salvador, filho de Deus, o Criador de todas as coisas, possa renovar em todos nós a fé e a esperança na vida eterna!

Feliz Páscoa!  

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Quando "lutar" vale a pena!

Todo caminho que leva ao conflito cada vez mais se distancia da Paz e todo "caminho" que leva a "Paz" cada vez mais se distancia do "conflito". No  Karatê-Dō aprende-se a lutar para "não lutar"!

Prof.Sylvio Rechenberg

terça-feira, 8 de abril de 2025

Carregamos conosco!

Todos os dias, podemos, se quisermos realmente, encontrar minutos "vazios", aqueles momentos em que não temos nada o que fazer. Esses minutos estão por aí ao nosso redor durante as várias horas do dia, é só aprender a observar a si mesmo e aproveitá-los.

Durante anos no Karatê-Dō, entre outras tantas coisas, estudamos, aprendemos e praticamos Kata.

Kata, quando atentamos, passa a ser o "norte", onde tudo o que praticamos tem relação com ele, é uma cartilha, por onde nos orientamos para que qualquer coisa que praticamos seja feita como um Kata, da forma correta, de acordo com esse código confiado a nós pelas antigas gerações que os cultivaram com sabedoria milenar.

O Kihon, que aprendemos antes mesmo de aprendermos algum Kata, já é por si só parte de um Kata, portanto é onde aprimoramos todos os aspectos que o compõem e que definem e amadurecem a intenção por trás de cada ação.

Então, quando estivermos naquele minuto do dia, em que temos a oportunidade de praticar, que o façamos, dando-lhe vida, vida ao movimento, ao Kata que carregamos para lá e para cá, onde quer que estejamos, independente de como nos encontramos. O Kata que estudamos, aprendemos e praticamos é para o nosso único e próprio benefício!

Prof. Sylvio Rechenberg

sexta-feira, 28 de março de 2025

O Kata “papagaio”!

Repetir uma frase sem, contudo, compreender e não vivenciar nem dentro e nem fora do Dōjo o que se está dizendo ao repeti-la, ou seja, repetir por conveniência, ou por hábito, ou porque faz parte da etiqueta, ou por mera formalidade, de nada vai adiantar, de nada vai acrescentar, não tem valor algum, é a mesma coisa que ensinar um papagaio a “falar”!

Então, mesmo que se pronuncie o (Dōjo-Kun) antes e depois das aulas, ou que se leia o livro dos 20 Princípios fundamentais do Karatê-Dō de O-Sensei, o (Niju-Kun), isso tudo não vai adiantar de nada para formar uma compreenção correta da Honorável Arte e muito menos irá servir como modelo na formação do caráter de um praticante, se ele continuar a agir como um leigo, como uma pessoa comum, como alguém que não tem nada a ver com o Karatê-Dō, alguém que só participa mas não se envolve, não assume a responsabilidade como karateka, mas que "se julga ser"!

Prof.Sylvio Rechenberg

terça-feira, 18 de março de 2025

Do livro de O-Sensei’Funakoshi, (Karatê-Dō - Meu modo de vida). Parte II

Um relato de Genshin Hironishi’Sensei, (Presidente do Karatê-Dō Shoto-kai do Japão).

...Existem muitas histórias sobre este homem extraordinário, grande parte delas contada por ele mesmo nas páginas seguintes. Algumas talvez, a esta altura, pertençam já ao reino da lenda, enquanto outras não receberam a atenção de Funakoshi’O-Sensei por serem parte tão intima de seu modo de vida que sequer estava consciente delas. Ele jamais se desviou de seu modo de vida, “o modo do samurai”. Ao jovem japonês do mundo pós-guerra, quase tanto quanto ao leitor estrangeiro, Funakoshi’O-Sensei talvez pareça um tanto extravagante, mas ele estava apenas seguindo o código moral e ético de seus ancestrais, um código que existia muito antes que houvesse algo como uma história escrita em Okinawa. Ele conservava os tabus ancestrais. 

Por exemplo, a cozinha era um território proibido para um homem de sua classe, e Funakoshi’O-Sensei, tanto quanto é do meu conhecimento, jamais entrou nela. E também nunca se dispôs a pronunciar os nomes de objetos tão mundanos como meias ou papel higiênico, visto que — mais uma vez segundo o código que seguia rigorosamente — essas palavras estavam associadas como que era considerado impróprio ou indecente.

Para nós que estudamos sob sua orientação, Funakoshi’O-Sensei era um mestre notável e muito reverenciado, mas temo que aos olhos de seu jovem neto Ichiró (agora coronel da Força Aérea de Auto-defesa) ele fosse apenas um velho teimoso. Lembro-me muito bem de uma ocasião em que Funakoshi’O-Sensei deparou com um par de meias jogado no chão. Gesticulando para Ichirõ, disse, “Guarde aquelas coisas!” “Não compreendo”, disse Ichitõ com um ar de absoluta inocência. “O que quer dizer com ‘aquelas coisas’?” “Sim”, disse Funakoshi’O-Sensei, “aquelas coisas, aquelas coisas!” “Aquelas coisas, aquelas coisas!”, arremedou Ichirõ. “Você não conhece a palavra para ‘aquelas coisas’?” “Eu disse para guardar aquelas coisas imediatamente! repetiu Funakoshi’O-Sensei, e Ichirõ foi obrigado a dar-se por vencido. Sua armadilha falhara; como o fizera durante toda a sua vida, seu avô ainda se recusava inflexivelmente a pronunciar a palavra “meias”.

No decorrer do livro, Funakoshi'O-Sensei descreve alguns de seus hábitos diários. Por exemplo, a primeira coisa que fazia ao se levantar pela manhã era escovar e pentear o cabelo, um processo que às vezes ocupava uma hora inteira. Ele costumava dizer que um samurai deve estar sempre limpo. Depois de tornar-se apresentável, voltava-se na direção do Palácio Imperial e inclinava-se profundamente; em seguida, voltava-se na direção de Okinawa e fazia inclinação semelhante. Só depois de concluir esses ritos todos é que tomava seu chá matinal.

...O-Sensei’Funakoshi foi um exemplo magnífico de um homem de sua categoria nascido no começo do período Meiji, e atualmente restam poucos homens no Japão dos quais se pode dizer que observam um código semelhante. Sou muito agradecido por ter sido um de seus discípulos e apenas posso lamentar que ele não se encontre mais entre nós.

Genshin Hironishi’Sensei   (Foi Presidente do Karatê-Dō Shōtō-kai do Japão e de total confiança de O-Sensei'Funakoshi)

    Genshin (Motonobu) Hironishi - 廣西元信 - (1913–1999)

sábado, 8 de março de 2025

Do livro de O-Sensei’Funakoshi, (Karatê-Dō - Meu modo de vida). Parte I

Um relato de Genshin Hironishi’Sensei, (Presidente do Karatê-Dō Shoto-kai do Japão)

“...A origem do Karatê-Dō permanece impenetravelmente oculta pelas névoas da lenda, mas pelo menos conhecemos este fato: ele se enraizou e é amplamente praticado em toda a Ásia, entre povos que professam credos tão distintos como o budismo, o islamismo, o hinduísmo, o bramanismo e o taoísmo. 

No transcurso da história humana, artes de autodefesa específicas atraíram seus próprios seguidores em várias regiões da Ásia, mas existe uma semelhança subjacente básica entre todas elas. Por esta razão, de um modo ou de outro, o Karatê-Dō se relaciona com as outras artes de autodefesa orientais, embora (penso poder afirmar) seja ele, atualmente, a mais praticada de todas.

O inter-relacionamento se evidencia de imediato quando comparamos o motivo por trás da filosofia moderna com o da filosofia tradicional. A primeira tem suas raízes lançadas na matemática; a última, no movimento físico e na técnica. Os conceitos e ideias, as línguas e os modos de pensar orientais foram modelados, até certo ponto, por sua conexão intima com as habilidades físicas. Mesmo naquelas situações em que as palavras, e as ideias, passaram por mudanças de sentido inevitáveis no decorrer da história humana, descobrimos que suas raízes permanecem solidamente encravadas em técnicas físicas.

Há um ditado budista que, como muitas outras máximas do budismo, é manifestamente autocontraditório, mas, para o karateka, confere um significado especial à sua prática técnica. Traduzido, o ditado reza, ‘Movimento é não-movimento, não-movimento é movimento. Esta é uma tese que, mesmo no Japão contemporâneo, é aceita pelos educadores e, devido à sua familiaridade, a máxima pode ser até mesmo abreviada e utilizada adjetivalmente em nossa língua. 

Um japonês que busque ativamente a auto iluminação dirá que está “treinando sua barriga” (hara wo neru). Embora a expressão possa ter implicações amplas, sua origem se encontra na necessidade óbvia de enrijecer os músculos do estômago, um pré-requisito para a prática do Karatê-Dō, que é, afinal de contas, uma técnica de combate. Levando os músculos do estômago a um estado de perfeição, o karateka é capaz de controlar não somente os movimentos de suas mãos e pés, mas também sua respiração.

O Karatê-Dō deve ser quase tão antigo quanto o homem, que desde seus primeiros dias se viu obrigado a enfrentar, desarmado, as forças hostis da natureza, animais selvagens e inimigos entre seus semelhantes humanos. Ele logo aprendeu, criatura insignificante que é, que em seu relacionamento com as forças naturais a acomodação era mais sensata que a luta. 

Entretanto, onde havia um equilíbrio maior, nas hostilidades inevitáveis com os seus semelhantes, ele foi obrigado a desenvolver técnicas que lhe permitissem defender a si mesmo e, esperançosamente, derrotar o inimigo. Para que isso acontecesse, aprendeu que tinha de ter um corpo saudável e forte. Assim, as técnicas que começou a desenvolver — as técnicas que por fim foram incorporadas ao Karatê-Dō são uma feroz arte de combate, mas são também elementos da absolutamente importante arte da autodefesa.

No Japão, o termo sumô aparece na antologia poética mais antiga do pais, o Man‘yõshú. O sumô daquele tempo (século oitavo) integrava não somente as técnicas que encontramos no sumô atual, mas também as do judô e do Karatê-Dō; este último teve um desenvolvimento maior devido ao incentivo do budismo, visto que os monges o utilizavam como um meio de percorrer o caminho rumo à auto iluminação. Nos séculos sétimo e oitavo, budistas japoneses viajaram para as cortes de Sui e T’ang, onde aprenderam a versão chinesa da arte, trazendo para o Japão alguns de seus aperfeiçoamentos. 

Durante muitos anos, aqui no Japão, o Karatê-Dō continuou confinado nos largos muros dos templos, de modo particular dos do budismo zen; aparentemente, não era praticado por outras pessoas até que os samurais começaram a treinar no recinto dos templos e assim ficaram sabendo da existência da arte. Como o conhecemos atualmente, o Karatê-Dō foi aperfeiçoado, nos últimos cinquenta anos, por Gichin Funakoshi’O-Sensei.”...

Fim da primeira parte.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

O ver e o enxergar!

Muitas vezes olhamos para o céu e vemos as nuvens pairando ao redor e por cima de nós, algumas densas outras nem tanto, mas que de dia escondem o sol e de noite a lua e a vastidão de estrelas definindo a formosura da criação!

Assim é o mundo interior que carregamos dentro de nós, muitas vezes olhamos para o “nosso” mundo e o vemos assim, as vezes denso e outras vezes nem tanto, mas que não nos permite enxergar o que nos faz brilhar, que nos faz “respirar” e que nos permite superar problemas que nem sonhamos suportar,  mas que podemos  enfrentar.

O-Sensei’Funakoshi através de um Kata, que resume todos os outros, o qual denominou “a criação” (Taikyoku), já nos mostrava que as mais variadas formas, (Kata), que existem para aprender e praticar, se traduzem em um simples, mas poderoso Kata, é onde tudo está, não pela aparência, mas pela consciência de a partir de lá manifestar todos os demais.

Então, quando o “mundo” parecer triste e sem cor, saiba que ali também existe, muito além do que se vê, uma infinidade de formas, de oportunidades e de capacidades de se fazer acontecer!

Prof.Sylvio Rechenberg