sexta-feira, 28 de março de 2025

O Kata “papagaio”!

Repetir uma frase sem, contudo, compreender e não vivenciar nem dentro e nem fora do Dōjo o que se está dizendo ao repeti-la, ou seja, repetir por conveniência, ou por hábito, ou porque faz parte da etiqueta, ou por mera formalidade, de nada vai adiantar, de nada vai acrescentar, não tem valor algum, é a mesma coisa que ensinar um papagaio a “falar”!

Então, mesmo que se pronuncie o (Dōjo-Kun) antes e depois das aulas, ou que se leia o livro dos 20 Princípios fundamentais do Karatê-Dō de O-Sensei, o (Niju-Kun), isso tudo não vai adiantar de nada para formar uma compreenção correta da Honorável Arte e muito menos irá servir como modelo na formação do caráter de um praticante, se ele continuar a agir como um leigo, como uma pessoa comum, como alguém que não tem nada a ver com o Karatê-Dō, alguém que só participa mas não se envolve, não assume a responsabilidade como karateka, mas que "se julga ser"!

Prof.Sylvio Rechenberg

terça-feira, 18 de março de 2025

Do livro de O-Sensei’Funakoshi, (Karatê-Dō - Meu modo de vida). Parte II

Um relato de Genshin Hironishi’Sensei, (Presidente do Karatê-Dō Shoto-kai do Japão).

...Existem muitas histórias sobre este homem extraordinário, grande parte delas contada por ele mesmo nas páginas seguintes. Algumas talvez, a esta altura, pertençam já ao reino da lenda, enquanto outras não receberam a atenção de Funakoshi’O-Sensei por serem parte tão intima de seu modo de vida que sequer estava consciente delas. Ele jamais se desviou de seu modo de vida, “o modo do samurai”. Ao jovem japonês do mundo pós-guerra, quase tanto quanto ao leitor estrangeiro, Funakoshi’O-Sensei talvez pareça um tanto extravagante, mas ele estava apenas seguindo o código moral e ético de seus ancestrais, um código que existia muito antes que houvesse algo como uma história escrita em Okinawa. Ele conservava os tabus ancestrais. 

Por exemplo, a cozinha era um território proibido para um homem de sua classe, e Funakoshi’O-Sensei, tanto quanto é do meu conhecimento, jamais entrou nela. E também nunca se dispôs a pronunciar os nomes de objetos tão mundanos como meias ou papel higiênico, visto que — mais uma vez segundo o código que seguia rigorosamente — essas palavras estavam associadas como que era considerado impróprio ou indecente.

Para nós que estudamos sob sua orientação, Funakoshi’O-Sensei era um mestre notável e muito reverenciado, mas temo que aos olhos de seu jovem neto Ichiró (agora coronel da Força Aérea de Auto-defesa) ele fosse apenas um velho teimoso. Lembro-me muito bem de uma ocasião em que Funakoshi’O-Sensei deparou com um par de meias jogado no chão. Gesticulando para Ichirõ, disse, “Guarde aquelas coisas!” “Não compreendo”, disse Ichitõ com um ar de absoluta inocência. “O que quer dizer com ‘aquelas coisas’?” “Sim”, disse Funakoshi’O-Sensei, “aquelas coisas, aquelas coisas!” “Aquelas coisas, aquelas coisas!”, arremedou Ichirõ. “Você não conhece a palavra para ‘aquelas coisas’?” “Eu disse para guardar aquelas coisas imediatamente! repetiu Funakoshi’O-Sensei, e Ichirõ foi obrigado a dar-se por vencido. Sua armadilha falhara; como o fizera durante toda a sua vida, seu avô ainda se recusava inflexivelmente a pronunciar a palavra “meias”.

No decorrer do livro, Funakoshi'O-Sensei descreve alguns de seus hábitos diários. Por exemplo, a primeira coisa que fazia ao se levantar pela manhã era escovar e pentear o cabelo, um processo que às vezes ocupava uma hora inteira. Ele costumava dizer que um samurai deve estar sempre limpo. Depois de tornar-se apresentável, voltava-se na direção do Palácio Imperial e inclinava-se profundamente; em seguida, voltava-se na direção de Okinawa e fazia inclinação semelhante. Só depois de concluir esses ritos todos é que tomava seu chá matinal.

...O-Sensei’Funakoshi foi um exemplo magnífico de um homem de sua categoria nascido no começo do período Meiji, e atualmente restam poucos homens no Japão dos quais se pode dizer que observam um código semelhante. Sou muito agradecido por ter sido um de seus discípulos e apenas posso lamentar que ele não se encontre mais entre nós.

Genshin Hironishi’Sensei   (Foi Presidente do Karatê-Dō Shōtō-kai do Japão e de total confiança de O-Sensei'Funakoshi)

    Genshin (Motonobu) Hironishi - 廣西元信 - (1913–1999)

sábado, 8 de março de 2025

Do livro de O-Sensei’Funakoshi, (Karatê-Dō - Meu modo de vida). Parte I

Um relato de Genshin Hironishi’Sensei, (Presidente do Karatê-Dō Shoto-kai do Japão)

“...A origem do Karatê-Dō permanece impenetravelmente oculta pelas névoas da lenda, mas pelo menos conhecemos este fato: ele se enraizou e é amplamente praticado em toda a Ásia, entre povos que professam credos tão distintos como o budismo, o islamismo, o hinduísmo, o bramanismo e o taoísmo. 

No transcurso da história humana, artes de autodefesa específicas atraíram seus próprios seguidores em várias regiões da Ásia, mas existe uma semelhança subjacente básica entre todas elas. Por esta razão, de um modo ou de outro, o Karatê-Dō se relaciona com as outras artes de autodefesa orientais, embora (penso poder afirmar) seja ele, atualmente, a mais praticada de todas.

O inter-relacionamento se evidencia de imediato quando comparamos o motivo por trás da filosofia moderna com o da filosofia tradicional. A primeira tem suas raízes lançadas na matemática; a última, no movimento físico e na técnica. Os conceitos e ideias, as línguas e os modos de pensar orientais foram modelados, até certo ponto, por sua conexão intima com as habilidades físicas. Mesmo naquelas situações em que as palavras, e as ideias, passaram por mudanças de sentido inevitáveis no decorrer da história humana, descobrimos que suas raízes permanecem solidamente encravadas em técnicas físicas.

Há um ditado budista que, como muitas outras máximas do budismo, é manifestamente autocontraditório, mas, para o karateka, confere um significado especial à sua prática técnica. Traduzido, o ditado reza, ‘Movimento é não-movimento, não-movimento é movimento. Esta é uma tese que, mesmo no Japão contemporâneo, é aceita pelos educadores e, devido à sua familiaridade, a máxima pode ser até mesmo abreviada e utilizada adjetivalmente em nossa língua. 

Um japonês que busque ativamente a auto iluminação dirá que está “treinando sua barriga” (hara wo neru). Embora a expressão possa ter implicações amplas, sua origem se encontra na necessidade óbvia de enrijecer os músculos do estômago, um pré-requisito para a prática do Karatê-Dō, que é, afinal de contas, uma técnica de combate. Levando os músculos do estômago a um estado de perfeição, o karateka é capaz de controlar não somente os movimentos de suas mãos e pés, mas também sua respiração.

O Karatê-Dō deve ser quase tão antigo quanto o homem, que desde seus primeiros dias se viu obrigado a enfrentar, desarmado, as forças hostis da natureza, animais selvagens e inimigos entre seus semelhantes humanos. Ele logo aprendeu, criatura insignificante que é, que em seu relacionamento com as forças naturais a acomodação era mais sensata que a luta. 

Entretanto, onde havia um equilíbrio maior, nas hostilidades inevitáveis com os seus semelhantes, ele foi obrigado a desenvolver técnicas que lhe permitissem defender a si mesmo e, esperançosamente, derrotar o inimigo. Para que isso acontecesse, aprendeu que tinha de ter um corpo saudável e forte. Assim, as técnicas que começou a desenvolver — as técnicas que por fim foram incorporadas ao Karatê-Dō são uma feroz arte de combate, mas são também elementos da absolutamente importante arte da autodefesa.

No Japão, o termo sumô aparece na antologia poética mais antiga do pais, o Man‘yõshú. O sumô daquele tempo (século oitavo) integrava não somente as técnicas que encontramos no sumô atual, mas também as do judô e do Karatê-Dō; este último teve um desenvolvimento maior devido ao incentivo do budismo, visto que os monges o utilizavam como um meio de percorrer o caminho rumo à auto iluminação. Nos séculos sétimo e oitavo, budistas japoneses viajaram para as cortes de Sui e T’ang, onde aprenderam a versão chinesa da arte, trazendo para o Japão alguns de seus aperfeiçoamentos. 

Durante muitos anos, aqui no Japão, o Karatê-Dō continuou confinado nos largos muros dos templos, de modo particular dos do budismo zen; aparentemente, não era praticado por outras pessoas até que os samurais começaram a treinar no recinto dos templos e assim ficaram sabendo da existência da arte. Como o conhecemos atualmente, o Karatê-Dō foi aperfeiçoado, nos últimos cinquenta anos, por Gichin Funakoshi’O-Sensei.”...

Fim da primeira parte.